terça-feira

Eu sei que nunca nos abandonaremos, Rebeca, hoje sei. Porque nos amaldiçoamos juntas em nosso nascimento gêmeo: somos carne de mesma raiz sangrenta, naquela manhã de chuva em novembro. Chovia? Chovia como chove o signo de escorpião e amanhecia porque tudo em mim sempre amanhece. Somos, Rebeca. Somos o que somos, nesses poros vivos de odores loucos. Eu não queria ver, mas me foi impossível não enxergar: e vi seu amontoado de coisas, as roupas por lavar, o sangue vertendo no íntimo de sua roupa íntima; você inteira mulher, não em poesia, mas em corpo que sangra todos os meses. Você biológica. Foi então que nos inventei gêmeas, femininas loucas no silêncio impuro. Eu e todos aqueles sonhos em meio a roupas sujas. Nós, e todo aquele medo da morte do amor. Eu, desde cedo parindo feito femeazinha fértil. Você nascendo minha em infinitos nomes. Só no meu ventre, Rebeca. Só no meu sangue. Só nas palavras proibidas de baixo calão. Só no múrmúrio escondido no canto da sala. Só nos pequenos furtos fazendo pecado. E lá fora sempre anoitecia. Lá fora sempre a festa se fazia e os fogos estrondosos barulhavam o céu. Você, então, brilhava e brilhava aguda nos meus olhos aguados de amor pelo pai. O meu pai. Aquele que eu jamais emprestaria a você, gêmea ruim de meus pecados. Rebeca, querida, nunca nos abandonaremos. Porque você jamais foi a resposta que me acalentou no medo frio. Você sempre foi a pergunta de ousadia que nasceu aqui, dentro, dentro, dentro, de onde eu não podia ousar sair. Você me mancha, Rebeca, e nunca vai embora…
Imagem: Frida Kahlo





e é tão desafiador ter uma Rebeca…
Rebeca vive…
Gostaria de ler tudo – é uma obra inteira? Leva um jeito de Proust revisitado.
Obrigada pela visita, um beijo.
já bati o olho e gostei porque vi Frida. quem também vê Frida, quem também sofre de Frida, sabe. sabe aquela coisa que. não é? é.
carla, adorei o seu comentário, achei ótimo quando você disse que não compreendia o que lia – porque eu sei que os outros não compreendem também, nem eu compreendo quase, exceto no momento que estou expelindo tudo, e tem vezes, que nem assim. adorei a sinceridade.
e você entendeu o que está além das palavras, que é aquilo que elas provocam, que é o que eu quero, que eu sempre quero.
lindo texto, bem escorpiano mesmo, de água vulcânica possessiva.
um beijo.
Ela machuca? Espero que não, pois não quero que Rebeca se vá…
Beijos, querida.
Carlinha, outro dia vi o filme da Frida Kahlo, que mulher incrível, que artista maravilhosa… Além disso, ainda foi amante do Trotski, o cara que denunciava os crimes de Stalin e de Hitler enqto o mundo tampava os ouvidos. Teu texto tá ótimo, essências a chuva não lava…
Carla, não tive tempo de vir aqui agradecer o belíssimo comentário que me deixou lá no Sede da última vez. E que me botou muito emocionada por perceber a essência das coisas que me tocam, as nuances, sempre elas, derradeiras, iniciais, decisivas ou rotineiras, o simples redimensionado pela poesia.
Também não tive tempo de vir ler as lindas coisas que você escreve. Aproveito, então, essa manhã chovida para ler seus últimos textos, e perceber a intensidade crescente das suas palavras, investigação visceral de suas multifacetadas origens, e maneiras de se contar. E o resultado é um vívido escarlate: como se rasga a carne a procura da cor da existência latejante e possuída.
Um beijo,