jul 30th
sábado

Man Ray Striletzia 1924 Vinte e sete anos

 

Meus vinte e sete anos

aflitos

incertos

nascidos da ruga mansa

que delira em mim:

sou jovem ainda

mas já não posso brincar.

 

Ouço a vida

de meus vinte e sete carinhos na esquina

de meus vinte e sete segredos no ouvido da mãe

- qualquer mãe -

travesseiro menina amiga amante

professora desejo namorado visita

mãe-menino que me põe no colo

e ousa

sempre ousa.

 

Ouço os gritos

de meus vinte e sete sonhos perdidos

de meus vinte e sete fios de cabelo

quase brancos

de minha pele macia enrugada

espremida de amor

de minhas valas meus vãos meus clarões meus estragos

minhas todas meninas perdidas no mundo

minhas todas amantes sorrindo ao fundo

minhas todas mulheres gemendo na lama

e o macho

que desponta em meu peito, em meu ventre:

eu mesmo!

 

Tenho vinte e sete anos e sou:

macho fêmea criança sentença borrão

a menina bonita dos olhos tão seus

o meu laço de fita a calcinha rendada

o lençol amassado os papéis espalhados

o amor remendado o delírio

você

 

Tenho vinte e sete anos e ela ainda não veio

- aquela -

- aquela -

- aquela -

a promessa de ontem

o anseio de hoje

a ferida o veneno os espasmos o gozo

a outra!

 

Vinte e sete anos e ainda eu-mesma:

essa dor só passa

rasgando.

 

Imagem: Man Ray - Composição fotográgica, Striletzia, 1924

6 pessoas dançando

  • wuldson marcelo disse:

    Descrição dilacerante da necessidade de definição que parece que a vida tem que tomar antes de chegarmos aos trinta anos. O que causa angústia e mil e uma dúvidas. Ter vinte e sete e se ver ainda próximo do adoscelente que se foi e tão distante do adulto maduro e determinado que exigem que sejamos. Quanta coisa fica pelo caminho… Há a promessa que tudo pode melhorar com o tempo. Mas como se o próprio tempo que nos esmaga. A dor, talvez, só passe rasgando.

  • quase hipólita, quase outra disse:

    puta que o pariu!

    só você!

  • Beta disse:

    Lindo, Carla! Tanto! Me deixou com um nó na garganta.

  • “sou jovem ainda
    mas já não posso brincar.”

    Que ode à maturidade chegando mansa, peregrina cansada, lúdica, amorosa. Aprendiz.

    Idade emblemática, na qual muitas almas porosas demais sucumbiram. Parabéns pela travessia.

    Beijo, querida.

  • Lunna disse:

    Uau, que delícia de interpretação. Me deu até vontade de reviver meus 27 anos, era a idade que eu deixei passar sem dar importância. nem faz tanto tempo. Aliás, o que é o tempo? Pra mim é uma contagem imprecisa, sem graça, mas sua poesia fez com que tivesse sabor e precisão.

    bacio

    e que seus vinte e poucos anos se multipliquem em versos…

  • C. disse:

    Podemos brincar, sim…

    … quando os teus 27anos ecoam em mim.

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