out 8th
sábado

van gogh starry night tempo dos segredos

No fundo do meu sexo, cintilava o perigo. Aquele do grito que acordava os vizinhos. Jamais acreditei que a madrugada fosse feita para dormir. Na verdade, apreciava todos os olhos abertos na escuridão: queria que todos nos víssemos livres e soltos antes de amanhecer. O tempo escuro dos segredos. Contaríamos assim: “a verdade é que eu gostaria mesmo de uma eterna preguiça todos os dias, brincando de amor e de glórias e odiando livremente meus inimigos”. Sem culpa. Sem medo. Sem que precisássemos silenciar nossas vinganças ou aquele sangue que nos escorre dos lábios quando abocanhamos nossos próprios monstros. O tempo da insônia. Um fio de loucura atravessando-nos na eternidade das histórias mal-contadas: cada um de nós guardando um pedacinho da verdade do mundo. Juntando os pedaços em uma colcha de retalhos. Toda colorida e feita para o amor dos amantes nas noites frias. O amor que se esconde sob os lençóis, o amor que se arranha silencioso para não espantar os anjos. O amor do pai e da mãe amantes ou dos homens que se namoram secretos temendo ser apedrejados. O amor aflito dos jovens e dos velhos, das moças bonitas que segredam-se belezas enquanto escurecem a madrugada até o seu fim. Até a hora do sol. Até amanhã. O amor bonito da escuridão. Que ergue sua voz melodiosa ao deus medroso – aquele deus-pai que é tão pai que se esqueceu de ser amante. Que se esqueceu do riso e da alegria. Aquele deus-pai dos trovões punitivos. Que lança raios nas cabeças dos pecadores. Que nos exige ajoelhados, santos, incapazes. Aquele deus-pai tão menino que vive trêmulo diante da possibilidade de perder sua glória. Aquele deus: o seu. Que se desentendeu com o delírio e já não sabe contar até mil as conchas coloridas da praia deserta. E que não brinca mais de roda. Nem faz amor.

Imagem: Noite Estrelada (Vincent Van Gogh)

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