quarta-feira
Faz um ruído úmido lá onde a vida quebra seu talo de flor. Como os ossos remexidos das últimas meninas devoradas por lobos. Ou homens vorazes. A gente não sabe. A vó conta a história que pode e a história que pode nem sempre é a verdadeira. Há momentos em que é premente uma noite de sono: “Dorme meu bem, que amanhã tem feira”. E, na feira, o mel, os ovos, o pastel de queijo e os tomates esmagados no chão. A senhorinha que sempre pede uma moeda ou meia fruta e tem os olhos fundos de história, como se conhecesse os dons de Nosso Senhor. De fato, certa vez cantou uma triste canção de Jesus, dessas que remetem ao sangue no Calvário, aos furos nas mãos de Cristo ou à morte nos olhos da primeira mulher do mundo – aquela que, em meus sonhos, voou até as fortalezas invisíveis de Deus e pediu que ali se fizesse sua morada. Não conseguiu. Elas jamais conseguem. Nem eu. Por isso evitamos sempre o olhar fundo da senhorinha das mãos implorantes, por isso desistimos sempre que o amor deseja fazer aquela incursão irreversível.
“É o talo da flor quebrando, vó… Agora acabou!”
São as últimas meninas devoradas por lobos. Mas nós não podemos olhar. A partir do momento em que decidimos nos importar, não há volta. Não há flor.
“Só o deserto, meu bem, só o vazio. Que é pra fazer morada nova.”
Imagem: pintura de Salvador Dalí





