fev 25th
sábado

passarinha Senhora passarinha

Dava de comer mansinha e tinha todo o jeito de mãe. Mas era tia. Dava de comer do próprio bico. Senhora passarinha. Dava seus pedaços de tecido, retalhos para a colcha que seria feita no final de maio. Colcha de amor e doçura para envolver os pudores de noiva virgem. Naquele tempo. Em que a gente sangrava na noite de núpcias. Não sei bem se era no peito ou na virilha, mas sangrava assim com jeito de prisão. As grades protetoras. Os dedos grossos dele. A aliança. O vigor. A fúria. Os tremores e os medos repentinos. Dela. Desaprendeu a tecer assim sem mais nem menos. Como a prima que havia desaprendido a ler aos sete anos de idade por causa de um trauma de quase-afogamento no rio perto de casa. Desaprendeu a viver num instante: furou o dedo na agulha e sangrou para sempre. Cantou para sempre. Aquela melodia bonita das moças bem nascidas. Que agora desgraçavam a família com seus excessos de amor: seus gritos. A enfermeira a amava: “como se fosse minha própria filha”. Achava-a bela como os primeiros raios do verão. Cintilante. E louca. “A enfermeira agora é minha mãe”. Aninhou-se na mãe, abriu o bico e pediu uma gota de sossego. Senhora passarinha. Cantava bonito feito um sabiá. Mas só sabia dizer bem-te-vi. E via, via, via. Todo o infinito que passava ali na frente, grade afora. Foram anos e anos desde aquele dia. Desde a sua morte. “Minha música?” – sussurrou no ouvido da nova enfermeira, que podia ser sua filha (a mãe já havia partido para o céu das santas) – “A marcha fúnebre”. Bem assim. Como se amanhecesse. Mas já era noite. Já era quase, quase o fim. Fechou as asas, terna e simples. E fez inverno em si.

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