jun 25th
sábado

medium Man Ray anatomie.4 Ras(g)ante

Era preciso cantar mais baixo: ela já não o suportava tão ansioso e desejante, tão poeta, vibrante, intenso. Ela. Ensaiava voos rasantes. Partia. Desistia. E voltava. Voltava suave e tímida, como se quisesse partir novamente: amanhã. E antes que amanhã chegasse, ele cuidava carinhosamente das próprias feridas: buracos dela nele. Era assim. Ele não sabia chorar. Então inventava que era homem e urrava: em frente ao espelho, jamais diante dela. Diante dela prometia mundos. E dizia que um dia ficaria rico. Compraria um avião. Prometia. Insistia. Contava segredos de terras que nem conhecia. Era menino. Tão menino que fazia fingimentos. E, nas farsas, era grande e tinha músculos de derrubar oponentes. Ela pouco se importava com os oponentes. Eram outros os seus desejos. Aprender a gritar. Vender sonhos. Parir mundos: todos os que dentro dela germinavam quentes. Quentes. Assustadoramente quentes. Ela, das pernas roliças de escorrer segredos: desejo líquido: lavas. De escorrer história. Nem era tão grande assim, mas acreditava. Enorme ontem, miúda em seguida. Como uma poesia disforme, de versos tão pesados que se tornavam leves na ponta. Bem na ponta. Aflita. Insistente diante do espelho torto: será que era? E, quando era, voava. Quase arrastando ventre e coxas no chão, mas voava. Quando não era, ficava. Acreditando que ali – só ali – poderia respirar. E suspirava. Porque o filho não podia nascer. E ela não podia perder as mãos no fogo assim de repente: quanta imprudência! Quanta! E era aí que ele aparecia. Trazendo gelo para curar queimaduras invisíveis. Trazendo as mãos e a poesia. E aquela música que arranhava triste pedindo: fique. Era aí que ele aparecia. Curando nada. Mas ela, na certeza de que um dia a doença apareceria, aceitava o tratamento prévio. E evitava acidentes de voo.

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