jan 20th
quinta-feira

balanco por causa da fome

Seguem suas vidas inventando alegrias vãs – e quem sou eu para dizer que são vãs? Mas são. Por causa disso, sinto sua falta – sinto falta de roubar-lhe a tarde plena de calor e de respirar vazia no espaço tão amplo que você me oferece. A sua casa. Continuo na sua casa mesmo que já tenha voltado para cá. Isso significa importâncias: eu poetizei você. E lhe peço mil perdões por isso. Queria beijar-lhe o rosto agora e dizer que não fiz de propósito. Foi-me inevitável. Não senti a sua fome, mas bradei por justiça certa vez. Eu ainda era criança e não entendia bem essas pequenas mortes: achava que, se doía, a gente tinha a obrigação de fazer sarar. E, ao mesmo tempo, eu tinha medo de gente que jamais me faria mal. Eu tinha medo de gente lá fora e não entendia que há males que nascem dentro. Como naquela casa em que o pai tomou a filha para si, como se lhe pertencesse. Como a vida diante daqueles que pensam ser donos – de que? Como quando a gente sente raiva da alegria vibrante de nosso irmão. Bem assim. E não sarava. Doía uma coisa pequena com gosto de férias mal aproveitadas – é dentro. Doía menor do que a sua fome, mas doía. É coisa de ser gente e ter paredes. Você também tem as suas, mas é tão vasto o quintal. O calor. E os meninos soltando pipa logo ali.

Havia uma menina também. Ela brincava com panelinhas desbotadas – virava mãe. E sabe Deus o quanto desejava voar feito uma pipa.  Você sabe. Imagino-a criança agora – há muitos anos. O pão dividido igualmente – pedacinhos miúdos – para você e para todos os seus irmãos. São nove. Você teve apenas uma boneca na vida e brincava de ser mãe. Lavava todas as louças e sonhava tão bonita: um dia, um dia. Ouvia ensinamentos pacientemente e, em segredo, desacreditava de alguns deles. Da descrença, construía um mundo repleto de fé. Desenhava Deus ao seu modo – às vezes ele tinha trejeitos de menina. Tal e qual a menina que hoje brinca com a panelinha desbotada. Saberá ela que, em breve? A gente nunca sabe. Eu não sabia, quando rodopiava viva de inteligência impossível: já almejei o mundo. Era cedo quando aprendi a escrever. Antes dos outros. Bem antes de tudo, as histórias. A minha vontade de degustar o mundo. E não sabia eu que, em breve. Ninguém sabe.

Em breve o mundo fica pequeno demais e você se acostuma a apequenar-se. Você significa eu. Porque você, você de verdade, não se apequena. Seus olhos de tamanhos desiguais me contam: é amada. E nem por isso descansa. Jamais descansa. Até o miúdo ninho de beija-flor merece seus encantos: “que os meninos não matem os bichinhos”.  E você me conta que tudo o que dói merece viver, pra matar a dor e inventar belezas. Ante o perigo de meninos e estilingues, dói o miúdo beija-flor. Ante as pipas que cortam suas pipas, doem os meninos. Doem também as meninas, bem aqui. Sou eu – e aquele em-breve que chegou suave parando meu rodopiar de estrela. Eu amo você porque você não cessa e porque não há em-breve no mundo que possa calar seus destemores.

Dizem que tudo isso é por causa da fome…

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