quinta-feira
O tempo resistindo ao adiante: não queria chegar ali. Não ali, onde sabia. Onde se sabia sozinha, ela. Incompreendida e na mais perfeita paz (que medo, a paz!). Onde não sentiria mais aquela maldita raiva que lhe provocava deliciosos revanchismos, dentes e risos. Não, não mais. Nada mais daquela vileza inocente, tão dela. Tão antiga, tão verdade, tão grudada naquele corpo-certeza, aquele que pareceu ter sido tomado contornos de eternidade a partir de uma primeira palavra de ordem: “fique”! Fique antes do adiante, antes dali, que ali é perigo. Justo ali, onde agora quase estava. Ali era ali. Simples e ali. Livre. Como se não tivesse mais vontade de coisinhas, aquelas. Aquelas de quem olha o espelho esperando ver um algo – um que? Desesperando. O espelho seria agora tão macio quanto ela seria bonita. Bonita e cheia de dobras para atravessar molenga a maciez vítrea. Bonita e gorda. Bonita e mulher. Bonita e nunca mais. Ela não era sonho: só os homens inventam sonhos. Era infinidade imperfeita, um muito, feita e desfeita de almejos de si: marca macia rugas furos dureza vento poeira grito flor. Ela: aquela, não a outra. A outra era a outra e podia ser vidro ou chocolate. Podia ser macho, tigre ou vontade. Mas não um sonho. “Só os homens inventam sonhos” – repetia sábia, silêncio, fêmea. Ela era pele e mulher. A outra e a outra e a outra e a outra. Feitas do tempo-descaso, vivas teimando na vida. Insistentes. E o tempo – o dela – já não podia resistir ao instante seguinte. Tempo passa, ultrapassa, vira. Roda. Rodou aos pedaços: rodou a mãe, tremeu a filha, venceu a terra. E todo o sangue do mundo mostrava que não havia sonho: era o rosto nu. Era ela.
…Atravessou o espelho para se tornar tão feia quanto a liberdade…






minha querida,
olha só: fico acanhada ao ler teus escritos!
Acanhada, sim! me ruborizo toda e estremeço diante de tanta sinceridade, de tanta feminilidade, de temanho chamado à fêmea!
Tentarei te escreve uma carta, ainda em resposta à última.
Mas minhas cartas sempre serão ínfimas diante de tanta multiplicidade que encontro nas tuas palavras!
Embora não se trate de competições estilísticas, mas é um tanto embaraçoso trocar missivas com uma verdadeira literata!
As neuras surgem e exijo de mim que escreva algo que ao menos te alcance, de alguma forma. Que te toque. Por isso, justifico minhas demoras. hihihihihihi
mas ela virá!
talvez a pé, com os pés descalços e já sangrentos pelo tortuoso caminho, mas ainda firmes.
um grande beijo,
Musa!
Ah, e só para constar:
toda vez que leio o que escreves me sinto diferente.
quase feliz!
ou feliz.
Sempre venho ler suas atualizações e me enroscar nas suas palavras ímpares, querida Carla. Não te conheço e já e sinto íntima.
Venho sempre aqui.
Te sigo nesses caminhos por aí, por aqui… Beijos.
Ana Luz