fev 13th
segunda-feira

YigalOzeri Para José

Desatei, José. E, desatando, permiti que as flores caíssem num festival suicida de despetalar gaivotas: o mar. Destino das miúdas mortes: meus pés na areia e seus olhos no infinito. Você era, José, o que eu esperava da voz do pai ou do irmão: murmúrio de ciúmes cegos. É que aprendi desde cedo que o pertencimento é fêmeo e feminizar-se é ser de alguém. Tudo um tanto equivocado, ela diria – ela é aquela voz mansa e delicada que me conta todas as noites que José não existe de fato. José é apenas o macho em mim: a pedra fosca. A vontade de me erguer rei do universo, desaprendendo a dança suave do desatar dos nossos nãos. Assim, José, assim: a sua não existência é o princípio do meu sim. O primeiro sim que dará à luz muitos outros. A primeira afirmação da vida. Seria fêmea a afirmação, José? Seria o desfazer dos laços que me roem os tornozelos? Zelo do amor, José. O seu amor: ciúme bem posto prendendo-me nos pés da cadeira da sala. José. A sua mancha em mim. Aquilo que aqui não se move. Nosso silêncio, José. Nossa dor. Quando prende, José, não é amor: é dó. Sou toda feita de dó.

 

Imagem: de Yigal ozeri

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