Ais

Clarice

Vinte e sete anos

A ronda

dez 7th
quarta-feira
Talo da vida

Faz um ruído úmido lá onde a vida quebra seu talo de flor. Como os ossos remexidos das últimas meninas devoradas por lobos. Ou homens vorazes. A gente não sabe. A vó conta a história que pode e a história que pode nem sempre é a verdadeira. Há momentos em que é premente uma noite [...]

dez 4th
domingo
A trama

Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem [...]

nov 30th
quarta-feira
bem-me-quer

lambeu a última pétala, o bem-me-quer, como quem saboreia o amor e seus feitiços; abocanhou as lacunas – dos olhos dele – lá onde cintilavam memórias em linhas de velhice; pediu ao pai um segredo novo que a tornasse rainha – dos homens ou das flores – e à mãe uma nota musical vazia para [...]

nov 20th
domingo
Olhares

  Tendo à loucura e – dessa tendência triste e mansa – faço um olhar doce-feroz, disfarço na palavra o grito, desteço na certeza os véus: faço nudez – mas só aqui dentro, meu bem, só aqui dentro: escondo-me daquilo que me olha: O caos o cais o vento. Cócegas na garganta vazia: a minha [...]

nov 16th
quarta-feira
três

Rompeu-se o feitiço em três o primeiro, carícia dos sonhos: feito para amaciar os aflitos; o segundo, desejo das almas, impulsionou os valentes os fortes os vivos!   Quanto ao terceiro – segredo dos loucos – foi a libertação do mundo: o ventre da virgem que deu à luz o menino do universo a saliva [...]

nov 13th
domingo
as cinzas das feiticeiras

  para Paula Zilá, Maria Carolina, Moa… Cantavam ali, sob o asfalto as cinzas das feiticeiras e as vozes de todas as mulheres que me desciam árduas na garganta Bebi! Bebi o que rompia o asfalto: o grito – esse dos corpos mutilados delas minhas meninas minhas mulheres minhas amadas as cinzas finas das feiticeiras [...]

out 28th
sexta-feira
Da torre

  “Não, Catarina, essa vontade não vai passar…” – ecoava a voz da outra infinitamente ali. Era uma voz firme e decidida, certa de que conhecia aquela pequena verdade que Catarina insistia em não ver. Era uma voz macia, plena de amor: era uma voz amante, como se viesse da própria terra e abraçasse Catarina [...]

out 19th
quarta-feira
Às duas

Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]

out 8th
sábado
tempo dos segredos

No fundo do meu sexo, cintilava o perigo. Aquele do grito que acordava os vizinhos. Jamais acreditei que a madrugada fosse feita para dormir. Na verdade, apreciava todos os olhos abertos na escuridão: queria que todos nos víssemos livres e soltos antes de amanhecer. O tempo escuro dos segredos. Contaríamos assim: “a verdade é que [...]

set 27th
terça-feira
o tempo de vocês

  Foi-se o tempo. Das fadas e dos silêncios de travesseiro e cobertor. Daquele aconchego. Foi-se o tempo de você e do Pai do Céu que nos amava tanto e tanto – para ele a gente rezava pedindo bênçãos de sol. Foi-se o tempo da barra da sua calça jeans e da calça de trabalho [...]