set 24th
quinta-feira

balanco Orquestra do mundo

Não é o começo, o fim, ou qualquer espaço no meio do caminho. É um balançar do tempo, nas ondas do mar, no desabar de folhagens ao vento. É um balanço do silêncio, Rebeca, um balanço profundo no fundo de seus ouvidos. É a minha voz, Rebeca, infinitamente rouca, e o meu sangue fino desandando ao luar. O trilhar do sangue é sempre tempestade e, longe da ciência, sangrar é rubrar. Rubramo-nos, Rebeca, porque é necessário. Hoje o dia está límpido, certo e bem feito: nem parece que existem desastres, nem parece que as coisas se quebram. Mas nós duas sabemos que os laços se rompem e que as solidões se fazem tristes, cada qual aos pedaços. Sabemos também que cada melancolia é uma melodia desenhada nos pés descalços do menino que corre ou nas mãos apressadas da mulher aflita. Temos o costume de olhar nos olhos e acabamo-nos por esquecer a beleza anônima das mãos que repousam, trabalham, mexem, acariciam, pedem. Mãos pedintes com vontade própria, pés dançantes num baile sem fim. E ombros tortos, barrigas entregues, ventres cheios, bocas vazias, toques inertes e nucas bem feitas. Olhamos nos olhos na busca de captar um pedaço humano ou divino, um aconchego pleno, uma resposta certa. Aprofundamo-nos no olhar em busca do amor. E nos esquecemos dos movimentos leves do mundo sem nome, do corpo animal de tudo o que é humano, de nossa predatória vida nas cidades, do doce balançar nas praças das crianças. Aflitivo, Rebeca, esse mundo inumano que nos percorre, esse traço invisível que nos escreve, o silêncio maldito que nos acalenta, as feras mansas como um fim de tarde e que só olham nos olhos para dar o bote. Tudo é dança, querida. Orquestra do mundo. Arranhando sons que sempre nos escapam.

9 pessoas dançando

  • daise disse:

    Tanta coisa me escapa…
    Hoje contei de um sonho, mais um dos que me impressionam.
    Beijo, querida.

  • daise disse:

    Estou com tanta vontade de encontrar a terapeuta e falar do sonho (pena que não estou podendo visitá-la neste mês de mudança).
    beijos.

  • O silêncio e os rompimentos a gente aprende a apreender…
    e libertar.

    olhar nos olhos é um costume, como se um contato mais real, mas… será que existe realidade?

    xêro

  • Beta disse:

    Você está cada vez melhor, Carla! Eu queria ler isso num livro. Que orquestra! Desenhos e metáforas precisas e tão pungentes, suas palavras agarraram extensões vastas, às vezes incomunicáveis daquilo que se sente e vive na selva-silêncio de nossa solidão. E “de nossa predatória vida nas cidades”, que nos convertem em “feras mansas” por força de circunstâncias esmagadoras. Ainda assim, estamos sempre prestes a “dar o bote”.

  • carla:
    poesia é tumulto.
    um beijo.
    romério

  • ephemerus disse:

    É antigo esse? Ou recentíssimo? Não importa, terminei de ler, engoli… em seco. Vc está mesmo cada vez melhor. Sobrevém a pergunta: “Onde isso vai parar, onde vai parar?”

  • felipe disse:

    oooooo amiga querida…

    é sempre bom retornar e ler suas coisas. é tipo um mergulho num lago de temperaturas e cores várias e íntimas.

    e eu sou o menino correndo descalço, mas sem melancolias, somente melodias.

    coisas boas pra você.

  • “O trilhar do sangue é sempre tempestade e, longe da ciência, sangrar é rubrar.”

    “as feras mansas como um fim de tarde e que só olham nos olhos para dar o bote.”

    gostei em especial desses dois trechos, não sei porque, cintilaram com um sentido obscuro. eu gosto das obscuridades, gosto do que não controlo, do que temo.

    beijo, carla!

  • Thomas G. Marasco disse:

    Olá Carla,
    Já estive em algum de seus bailes? A minha viagem por seus textos, ver o seu desfazer-se na escrita, atrevida, sem medo das marcas, de sangrar, me deu essa impressão, mas pode ser engano meu.
    De qualquer forma foi muito agradável caminhar pelos salões, invisível, observar as personagens imaginárias dançarem, suando as suas preces, sua matéria, sua não-matéria, suas partes todas, e depois saírem por aí, tomando uns goles, se diluindo na vida real.
    Beijos para Rebeca.
    Thomas

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