sexta-feira
Escondi 36 pecados sob o tapete. Desde então me escondo ali também e me ponho a perguntar o que os interdita. Há quem grite impropérios ao motorista grosseiro, aquele que quis atropelar a jovem pedestre – a distraída. Há quem insista no impróprio e imoralize as cenas cristalinas. Há quem faça coisas assim. Eu não. Tenho medo de que me vejam e oculto a vertigem que me tropeça em volúpias. Então, amanhã cedo, ele perguntará meu nome e eu responderei: “sóbria”. Porque faço sobriedades para sobreviver. Porque toda manhã é assim. Os entornos só me destecem à noite e por toda madrugada me onirizam: eu, em sonhos, já salvei menino-filho e conheci mulher-alma – era penada. Ela penava noite afora as dores de um corpo violentado. Ela foi meu pesadelo durante tantos momentos e cenas: era um filme angustioso nessas minhas escuridões. Ou não. Não. Não que tenham sido sonhos ou filmes ou imagens distorcidas de invenções minhas. O menino-filho sangrando – e implorando que alguém o tome no colo – existe. A mulher ferida é fato, palpável, doída; mesmo depois de morta. Eu os reconheço nas ruas, enquanto passeiam sombras – olhares e histórias e mãos e breves palavras. Pedaços. Eles e elas se fragmentam invisíveis: tão reais que doem – poeiras. E o dia aqui tem tanta pressa que nem encosta na dor. É a madrugada quem, gentilmente, empresta a eles a inteireza do sonho e a minha mania de um final quase-feliz. Silêncio-alívio, parece que a vida para. Parece sossego. Parece que a sobriedade é possível. A gente sabe que não: a gente sabe que há muitos e muitos vãos lá fora, ardendo venenos e alegrias e solidões e eternidades – aquela fenda-ferida do chão que sangra. Eu sei que sangra: sob o asfalto existe a terra, vermelha feito o coração do fundo sem fundo de mim…
Imagem: Jenny Terasaki






ler vc é me des-re-conhecer. fundo sem fundo de mim. bom demais. fala da fatalidade, dos desvãos e da sobriedade com tal singeleza de lamento sem ser corrosiva. doce cáustico.
bjo,
ah, imagens lindas!!!!!!!
36 pecados sob o tapete…
gosto quando começa seus textos.
obrigada pela visita,
um beijo!
A mulher ferida é falo. E penada, desambiciona as garatujas dos especialistas. Reeditada inúmeras vezes e à mercê das catacumbas do insanatório, ela bem que tentaria catar os próprios escombros e decifrar a letra incrustada na escuridão da masmorra. Mas apagaram seu último olho. E tudo é muito mau e definitivo.
E contigo venho compartilhar histórias mundo, dores da terra que sangra, que racha em rio, vertigem de alma que pena.
Tens um telegrama, e, desde já, agradeço a esta carta prenúncio, já me parece uma resposta, ou talvez um vaticínio.
um afago, Polímnia
Peço licença para uma dança aqui neste baile. Dança contida, mais deslumbramento diante dessa onírica prova de que as histórias e as Histórias são sempre inventadas pelo silêncio. E não era nem preciso que você jurasse. Bastava dizê-lo que, pelo poder da sua palavra, eu acreditaria.
Eu acredito. Embora desacredite do desassombro de beleza espreitando por trás de suas palavras. Uma beleza terrível, como o anjo de Rilke, pronto a nos esmagar (e desdenhando fazê-lo), ou como as dores de um corpo violentado, penadas noite afora. Será dessa matéria que somos feitos, nós e a nteireza dos sonhos?
quis dizer:
“nós e a inteireza dos sonhos?”
Nesse belo baile, o que tange minha pele são belos vestidos e as enormes náguas, enquanto sapatilhas tocam ao chão num sincronismo musical quase utópico. A pele senti o tangir, a mente só lê, lê, e não encontra palavras para descrever.