jun 11th
sexta-feira

dreamer onírica

Escondi 36 pecados sob o tapete. Desde então me escondo ali também e me ponho a perguntar o que os interdita. Há quem grite  impropérios ao motorista grosseiro, aquele que quis atropelar a jovem pedestre – a distraída.  Há quem insista no impróprio e imoralize as cenas cristalinas. Há quem faça coisas assim. Eu não. Tenho medo de que me vejam e oculto a vertigem que me tropeça em volúpias. Então, amanhã cedo, ele perguntará meu nome e eu responderei: “sóbria”. Porque faço sobriedades para sobreviver. Porque toda manhã é assim. Os entornos só me destecem à noite e por toda madrugada me onirizam: eu, em sonhos, já salvei menino-filho e conheci mulher-alma – era penada. Ela penava noite afora as dores de um corpo violentado. Ela foi meu pesadelo durante tantos  momentos e cenas: era um filme angustioso nessas minhas escuridões. Ou não. Não. Não que tenham sido sonhos ou filmes ou imagens distorcidas de invenções minhas. O menino-filho sangrando – e implorando que alguém o tome no colo – existe. A mulher ferida é fato, palpável, doída; mesmo depois de morta. Eu os reconheço nas ruas, enquanto passeiam sombras – olhares e histórias e mãos e breves palavras. Pedaços. Eles e elas se fragmentam invisíveis: tão reais que doem – poeiras. E o dia aqui tem tanta pressa que nem encosta na dor.  É a madrugada quem, gentilmente, empresta a eles a inteireza do sonho e a minha mania de um final quase-feliz. Silêncio-alívio, parece que a vida para. Parece sossego. Parece que a sobriedade é possível. A gente sabe que não: a gente sabe que há muitos e muitos vãos lá fora, ardendo venenos e alegrias e solidões e eternidades – aquela fenda-ferida do chão que sangra. Eu sei que sangra: sob o asfalto existe a terra, vermelha feito o coração do fundo sem fundo de mim…

Imagem: Jenny Terasaki

8 pessoas dançando

  • Beta disse:

    ler vc é me des-re-conhecer. fundo sem fundo de mim. bom demais. fala da fatalidade, dos desvãos e da sobriedade com tal singeleza de lamento sem ser corrosiva. doce cáustico. :)
    bjo,

  • Beta disse:

    ah, imagens lindas!!!!!!!

  • Nina disse:

    36 pecados sob o tapete…

    gosto quando começa seus textos.

    obrigada pela visita,
    um beijo!

  • Herbert disse:

    A mulher ferida é falo. E penada, desambiciona as garatujas dos especialistas. Reeditada inúmeras vezes e à mercê das catacumbas do insanatório, ela bem que tentaria catar os próprios escombros e decifrar a letra incrustada na escuridão da masmorra. Mas apagaram seu último olho. E tudo é muito mau e definitivo.

  • Hipólita disse:

    E contigo venho compartilhar histórias mundo, dores da terra que sangra, que racha em rio, vertigem de alma que pena.
    Tens um telegrama, e, desde já, agradeço a esta carta prenúncio, já me parece uma resposta, ou talvez um vaticínio.

    um afago, Polímnia

  • Theo disse:

    Peço licença para uma dança aqui neste baile. Dança contida, mais deslumbramento diante dessa onírica prova de que as histórias e as Histórias são sempre inventadas pelo silêncio. E não era nem preciso que você jurasse. Bastava dizê-lo que, pelo poder da sua palavra, eu acreditaria.

    Eu acredito. Embora desacredite do desassombro de beleza espreitando por trás de suas palavras. Uma beleza terrível, como o anjo de Rilke, pronto a nos esmagar (e desdenhando fazê-lo), ou como as dores de um corpo violentado, penadas noite afora. Será dessa matéria que somos feitos, nós e a nteireza dos sonhos?

  • Theo disse:

    quis dizer:

    “nós e a inteireza dos sonhos?”

  • Nesse belo baile, o que tange minha pele são belos vestidos e as enormes náguas, enquanto sapatilhas tocam ao chão num sincronismo musical quase utópico. A pele senti o tangir, a mente só lê, lê, e não encontra palavras para descrever.

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