terça-feira
Foi-se o tempo. Das fadas e dos silêncios de travesseiro e cobertor. Daquele aconchego. Foi-se o tempo de você e do Pai do Céu que nos amava tanto e tanto – para ele a gente rezava pedindo bênçãos de sol. Foi-se o tempo da barra da sua calça jeans e da calça de trabalho dele – eu miúda me agarrando aos tornozelos de vocês, bem assim, como se pudesse ser levada para longe, bem longe, no mundo da gente grande. O tempo, o tempo, o tempo. Do pão molhado no café e das mãos pequenas alcançando um pedaço do céu. Da máquina de escrever e suas histórias de menina. Das minhas princesas que cantavam na varanda. Dos meus deuses que castigavam meu sexo. O tempo em que minha língua saboreava picolés de limão e meus pés saltitavam livres na terra macia. O tempo de meu tempo sem solidão: quando havia o seu colo e a sua cadeira de balanço. Quando você me contava histórias de fazer dormir: mas eu jamais dormia. Sempre atenta, arregalava os olhos para a história do mundo. Arregalava os olhos para o deus de meus pecados: eu era miúda pecadora dos sonhos impossíveis. Só porque desejava voar. E voar. E voar. Só porque sabia que meu pai era o Pai e trabalhava longe e tinha lá suas boas histórias pra contar. O tempo, amor, o tempo. Em que eu temia isso. Essa inevitável solidão. De quando o tempo passa e o velho sábio começa a andar tão devagar e a delirar tão bonito que agora a gente sabe que já não há mais como esperar dele os ensinamentos lúcidos de outrora. Resta-nos aprender com o delírio. A memória perdida. A solidão de não mais precisar. “É meu caminho, agora” – digo, singela. E pode ser que seja bom. Pode ser que seja mau. Pode ser amanhã. Ou neste instante, enquanto respiro suave as últimas despedidas. Da barra da sua calça jeans. E da calça de trabalho dele. Hoje, sou quase vocês – que repousam em mim seus nomes e suas dores. E aqueles sonhos perdidos.
Imagem: Salvador Dalí (Persistência da Memória)





