jan 22nd
domingo

 

iemanja O nome da deusa

E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente se rompe em corpos mil: os olhos negros de Jorge, o fundo na noite em Lucas, o peso da morte em Paulo e todas as tantas verdades nas meninas que acabaram de nascer. Menina, que também é Homem – Homem que é o infinito da palavra que engloba o mundo e seus todos e todas. Por isso escolho agora a palavra Mulher e deixo que ela se multiplique ali na estrada. Na pele escura de Ana, andante Ana – eterna Ana rompendo-se em grãos de areia e asas de borboleta: Ana de cabeça raspada, Ana de cabelos soltos e livres, Ana mãe filha anjo sereia, Ana que agora é Maria – minha Maria. Sempre faço minhas as Marias. Sempre me esbarro com elas aqui ou ali e elas me contam seus segredos ou suas verdades: houve aquela Maria que esquizofrenizava todas as palavras do mundo, de modo que minha compreensão era rasa diante de todos os pedaços dela. Houve a outra que jamais envelheceu, e que me cantava serena umas canções tão antigas, que me faziam pensar: “de que tempo você vem?”. De que tempo? E houve outra. Maria das mulheres. Maria que se despedaçava em santa ou madalena, maria para quem eu rezava minhas preces de amor ou entregava minha vontade de revolução. Maria de cabelos livres, nos tempos em que a polícia reinava: expunha seu corpo de mulher e clamava por transformações. Pedia um espaço para os pedaços esquizofrênicos da primeira, outro espaço para o tempo de todas as mulheres – mesmo as que não eram esposas – e, ao contrário da segunda, talvez tenha nascido mais velha que o mundo. Então por que os olhos tinham toda a graça torta da juventude? “Me conta o seu segredo, Maria…” Mas não havia segredo. Havia apenas ela, ali: elas tantas. O verbo que se fazia carne viva, a carne das mulheres: a carne que dizia, em seu balanço pelas ruas – empunhando bandeiras de tantas cores -, a carne que dizia o nome da deusa.

1 pessoa dançando

  • Lunna disse:

    Bom dia carissima, estou aqui a ler mais um de seus escritos acerca de mulheres e fico aqui pensando nessa ceara infinita que de tempos em tempos se levanta e grita e sabe que irá ser ouvida e depois silencia para ela mesma ouvir o seu eco.
    Na próxima edição da revista Mostra Plural terei o tema “mulher” para narrar através desse elemento singular: o plural. Pleonasmo, não acha?
    Enfim, adoraria ter suas linhas. Então escolha meia dúzia delas e envie para o meu email meninanosotao@gmail.com. Ok? No aguardo. bacio

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