sexta-feira

Para Rebeca em 06/01/07
Resposta de Rebeca em 31/01/07
Minha querida,
Nem as feras contam segredos, nem as grandezas são eternas. Você teme, eu sei, você teme tudo isso que acontece aí: seus pés mais firmes e seu amor mais vivo, seu pensamento mais acelerado como se atingisse o céu; você teme perder o colo de leite dourado dela, perder a adoração suprema por ela, e teme nunca mais se curvar diante do altar dela. E tudo isso é o que, meu bem? É orgulho, eu digo. Seu coraçãozinho é por demais feito de orgulho e veneno. É de uma doçura – tanta! – mas feito de orgulho e veneno: você quer fechar os olhos para o movimento que o tempo faz aí em sua alma porque tem medo de que o seu altar – aquele no qual um dia você pretende se sentar – desmorone diante de todos, assim como tantos altares outros hoje desmoronam diante de seus olhos. Você olha com tanta compaixão para a sua rainha e pede: “Erga-se!”, como se houvesse no mundo espaço para tantos erguidos. Mas alguns se deitam, minha adorável e orgulhosa menina. Boba. Tolinha. As feras não contam segredos, mas eu sim. Eu sou feita de fadas, como você ousou inventar. E se de seus lábios nascem murmúrios e venenos, suas invenções não poderiam ser tão gentis: eu não sou gentil, embora goste de você. Eu não sou gentil, embora voe. Vá, erga-se em sua solidão e dance, e dance, e dance. Iluda-se enquanto ainda é tempo, meu bem, porque o tempo passa. Eu vou, agora eu vou, ando apressada, e suas dores não me comovem mais.
Até algum dia, quem sabe,
Com amor sempre,
Rebeca
Imagem: Frida Kahlo - "El Abrazo del Universo"





é tâo sincrônico o que escreve.
sinto, posso sentir lá no fundo, intimamente.
como Rebeca e sua interessante interlocutora.
sacerdotisas que vivem sem pretender a perfeição.