ago 14th
sexta-feira

 as feras e nossos silêncios

Para Rebeca em 06/01/07

Mas, Rebeca, as feras não contam segredos. São silenciosas e, de mansinho, devoram cada detalhe de mim. Eu pergunto a você: quando foi que deixou de me proteger? Não é que eu sinta falta, mas morro de ciúmes de todos os outros destinos que seriam meus caso eu não houvesse escolhido este ou aquele passo, e você entenderia isso de um jeito tão simples e delicado, e entregaria a mim possibilidades de destinos tantos, fantasiosos, delirantes, de sereias, fadas ou ditadores impiedosos. Quando foi que deixou de me proteger? Já não ouço qualquer passo seu, nem o cintilar de sua letra trêmula, mas a voz de meu pai diz doçuras todas as manhãs e tudo é tão distante; tudo é tão distante quando a gente começa a ter segredos. O mundo é lá longe e é também aqui dentro. Tenho amantes, e moços, e amores, e amigos, e vontades, pretendo um dia ter filhos e bicicletas azuis. Mas meu pai é o segredo mais bonito, a saudade que eu quero guardar. Uma vez eu quis prender uma voz de contos de infância bem aqui na minha mão. Mas não cabe. Nem nos ouvidos. Nem em qualquer pedacinho da extensão da minha pele. As feras não contam segredos nem sentem saudades. É bom que você saiba disso. Elas são silenciosas e, de mansinho, devoram cada detalhe de você…

Resposta de Rebeca em 31/01/07

Minha querida,

Nem as feras contam segredos, nem as grandezas são eternas. Você teme, eu sei, você teme tudo isso que acontece aí: seus pés mais firmes e seu amor mais vivo, seu pensamento mais acelerado como se atingisse o céu; você teme perder o colo de leite dourado dela, perder a adoração suprema por ela, e teme nunca mais se curvar diante do altar dela. E tudo isso é o que, meu bem? É orgulho, eu digo. Seu coraçãozinho é por demais feito de orgulho e veneno. É de uma doçura – tanta! – mas feito de orgulho e veneno: você quer fechar os olhos para o movimento que o tempo faz aí em sua alma porque tem medo de que o seu altar – aquele no qual um dia você pretende se sentar – desmorone diante de todos, assim como tantos altares outros hoje desmoronam diante de seus olhos. Você olha com tanta compaixão para a sua rainha e pede: “Erga-se!”, como se houvesse no mundo espaço para tantos erguidos. Mas alguns se deitam, minha adorável e orgulhosa menina. Boba. Tolinha. As feras não contam segredos, mas eu sim. Eu sou feita de fadas, como você ousou inventar. E se de seus lábios nascem murmúrios e venenos, suas invenções não poderiam ser tão gentis: eu não sou gentil, embora goste de você. Eu não sou gentil, embora voe. Vá, erga-se em sua solidão e dance, e dance, e dance. Iluda-se enquanto ainda é tempo, meu bem, porque o tempo passa. Eu vou, agora eu vou, ando apressada, e suas dores não me comovem mais.

Até algum dia, quem sabe,

Com amor sempre,

Rebeca

Imagem: Frida Kahlo - "El Abrazo del Universo"

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