terça-feira

Para Rebeca em 20/11/06
Rebeca,
Escrevo a você, sim, de todas as formas possíveis e meus dedos tremem – eu tomaria qualquer coisa para dormir, mas quero ficar acordada até amanhecer. Sinto agora o dia certo pra revelar o grande segredo, alucinado segredo, agora que meu corpo se desfaz em mil, ah, meu corpo é como os corpos comuns. Não é mais como o corpo que pertencia a ele, aos abraços dele, o corpo que pra ele fiz de uma nudez brilhante e viva, e queimava em cores de pele, nas mil cores que uma pele pode ter. Sinto ainda o desenho antigo e forte de uma criança, riscando forte e murmurando despudores santos, nos tempos antigos em que a beleza não era uma vingança, mas um riso. Um presente delicado ao amanhecer, e tudo tinha qualquer coisa morna e misteriosa que fazia o ar parecer mais denso. Sabe, Rebeca, tenho aqui um segredo: um espelho que me revela infinitas. A velha, a gorda, o homem, o anjo, a moça, o bicho, você. Existe algo amarelado em meus olhos que não sei se é voracidade de bicho que vive no meio do mato ou se é saudade do amor em retratos antigos. Nada sei. Tudo é você como se fosse eu. Tudo é você em cores de rainha.
…
Resposta de Rebeca em 26/11/06
Tudo somos nós, querida, porque somos um espelho louco e torto do mundo. Mas lentamente agora tomamos certa forma que não sei se é sólida ou mole, mas que pode ser sentida entre os dedos e que se perde pra sempre nas águas do mar. Sei que o que digo não tem sentido algum, sou sempre um pouco bêbada e tenho cabelos que sangram, mas se minhas coxas e meus colares podem ser sentidos entre os dedos, apertados e marcados, é só porque tenho coxas e uso colares, e tudo isso porque sou viva e real. A realidade, é claro, acaba me ferindo um pouco: ontem machuquei alguém e então todas as palavras que eu disse ficam ecoando para sempre na minha cabeça, e isso se chama amor – é piegas, mas é um pouco de amor, querida. Amor não é só isso que você pensa, que você imagina e que se arde do cansaço de não conseguir entender. Amor é coisa bem simples como não querer ferir e como ter um corpo. A nossa casa é de verdade e existem pessoas que não têm casa. Uma vez morri de culpa por causa disso que quis entregar minha alma e meu destino a Deus. Mas a gente sente culpa sempre e depois mata a culpa, menina. Meu coração agora diz que é domingo e eu não sei se existo mais. Domingo é dia feito pra gente não existir. E também espero que você siga seu caminho em sua corajosa nudez. Sei que tem medo. Sei que morre de medo. Mas empresto a você meus colares para sempre, e me despeço porque já é tarde…
Com carinho, sempre…
Rebeca
Imagem: Ligação Perigosa (René Magritte)





Fiquei morrendo de inveja – nunca recebi uma resposta de minha Doris.
beijos, querida.
Te devo créditos, menina. Te leio e me inspiro.
:*
E A Rebeca é encantadora. Essas missivas sÃO tão belas e em lembram tanto coisas de Clarice.
beijos, Rebeca.
Rebequinha, sabe que eu também sinto isso às vezes: a banalidade do amor. Não tem a banalidade do mal? Pois então… também existe a banalidade do amor. A paixão, não… Essa rasga e é única.
Oi, Carla!
Especialmente nessa carta, impossível não recordar Clarice em seu mais puro momento de inspiração. Densidades que você reaviva com voz própria e independência, sagrada ao transe da escrita, condensada em vapores mágicos. Há sempre trechos particularmente memoráveis nos seus escritos que gosto de destacar sei lá por que, mas impossível passar ilesa a certas palavras:
“Sinto ainda o desenho antigo e forte de uma criança, riscando forte e murmurando despudores santos, nos tempos antigos em que a beleza não era uma vingança, mas um riso.”
Essa coisa de ser “sempre um pouco bêbada” é tormentosa e deliciosa ao mesmo tempo, há perigo e conforto misturados. Em se tratando de intensidades, é quase impossível a realidade não ferir sempre um pouco, o que de forma alguma é ruim, ou deve indicar renúncia. É a vida pulsando em suas muitas formas, todas de uma vez!
Beijinhos,