mai 29th
sábado
raizes noiva ninfa dos feitiços

Frida Kahlo - Raízes

Ela, pequena, voava faceira;

amava viagens: sorria miragens.

Veio me contar hoje mesmo

que amanhã amanheceria

A boca salgava reentrâncias: era oceânica.

Foi então que pariu aquele segredo

de nome vermelho

Era tão rubra que sangrava

e suas manhãs espelhadas contavam mil histórias.

Nasce a primeira, alva e rendada:

*

Azuis, meus sonhos eram pétalas

e eu estava vestida de noiva…

foi em uma estação de trem

vazia

que me despi inteira e me exibi cicatriz

desde então nunca mais casei

mal-falaram os nomes da minha nudez

bem-disseram a força dos braços dele

o noivo era muito mais bonito que eu

mas eu voava…

*

O sal parecia vinho e embriagava os lábios-mares

Ela, sorrindo,  historiava macia

Memoriava cigana

as cores de seu futuro

Nas mãos-volúpias da terra

leu um destino-mistério:

fundo!

Foi assim que fez história – mais uma

ouvindo a língua do mundo:

*

No fundo do lago verde

Existe uma pedra de sal

É lágrima, segredo, mar

Dói como se o bebê morresse

- aquele que era meu filho –

ou como se o vento parasse

e toda a terra ruísse.

Eu era mãe de uma pétala

que se tornou uma flor

rasguei meus vestidos e hoje

ao fundo do lago vou.

Nua!

*

Brincávamos danças de roda

Mãos atadas, menos ela

Sozinha, criava os mapas

de reinos que não nasceram

florestas e trilhas e rios

centenas de pedras caminhos

Era rainha do nada

e ao nada narrava inventos:

*

Róseas matas

terras de ninfas

eu, musa-cantora da voz-silêncio das folhas,

cantei os ventos de fora aos sonhos-aromas da Lua

vertendo areias e sangues e águas-bentas

explosão das marés das manhãs mansas

Macia, amansei o Sol

pros raios dançarem mais doces

e fazer escuro mais cedo

Nasceu aqui o silêncio que afunda na terra…



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