jan 14th
sábado

botticelli o nascimento de venus Nascida

 

Do mesmo modo que a tua estrela cintilava firme

feito um farol eterno no infinito do mundo

a minha me engolia em fogo

- eu no inferno:

desabrochando em cinzas férteis

e novos grãos.

 

Nasci sob o signo dos sonhos:

atarefada demais nas ilusões

ensimesmada

aguada.

 

Nasci na fé infinita das crianças,

mas com olhos mais velhos que o mundo.

Nasci assim: para o amanhã

Sozinha

De modo que.

 

De modo que existo e me parto

- um parto!

 

Cada nascimento é uma ferida aberta

e eu tantas vezes nasço, invento e me refaço

tantas vezes vivo, insisto,

desato

mato

teço tuas mãos tremendo em meu ventre

ou tua vontade escorrendo em meus lábios:

um grito de prazer.

Faço teus nós em meus dedos:

- abro-me -

e já de dentro sou a casca arruinada

daquilo que passou:

um véu de ontem.

 

Eu nasço

infinitamente

- e tantas vezes mais -

até que um dia.

 

Imagem: O nascimento de Vênus (Botticelli)

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