segunda-feira
Minha Flor de Lis,
Escrevo hoje tão calma – tão calma – como aquelas para quem a vida é simples. E deveria ser. Volta e meia ele vem e me diz que eu deveria perceber a simplicidade das coisas: estou aqui, estamos juntos e amanhã a boa nova vem. Vem? Nem vem. Eu espero a boa nova como quem espera o que. O que? Nem sei do que se trata, Flor. Nem sei. A boa nova seria tão bonita como calar acostumada diante da criança que cresce em doçura e ferocidade explorando os detalhes mágicos do mundo. Mas de repente eu sei que não existem detalhes mágicos do mundo em todos os mundos. E então me dói a cabeça insubordinada e eu penso que preciso de mais um paracetamol para esquecer o sofrimento do outro. Do outro, sabe. Aquele outro. Mas hoje não é assim. Escrevo-lhe hoje centrada em meu castelo, acostumada a uma angústia tão minha que nem sei dizer. Já não é possível dizer daquilo que nos é tão próprio, tão infinitamente nosso. Aquilo que nasce pulsante antes da pele, antes das veias, antes do coração. Aquilo, Flor de Lis, que busco em sua casa e em tantas outras casas de amigos; aquilo que busco nas praças e nos colchões; aquilo que busco no amor. Aquilo que ultrapassa a beleza e me acolhe na velhice que já se anuncia: essas miúdas rugas que desenham a nossa sempre infância. Somos para sempre.
Mas eu dizia da criança que cresce em doçura e ferocidade. É que me lembrei dele: doce e feroz. O seu menino. E eu acho bonito como a sua história se entrelaça nas minhas letras: a sua história que é como se fosse qualquer história, mas é bela porque é sua, é bela porque é o deslizar suave de sua vida repleta de sonhos, repleta de infinitos; é bela porque é meu espelho: mas eu não sei se me vejo em você ou na criança. E então me pego pensando que adoraria ser feliz ao menor ruído, adoraria conhecer essa felicidade que se expande no corpo expansivo que invade o mundo e seus mistérios. É que aprendi a ter medo dos mistérios e das alturas e dos escuros e das velocidades e dos amores e das loucuras e dos orgasmos e das torturas e das viagens e das leituras. E das cervejas, das batucadas, das namoradas, dos tambores, das madrugadas, dos corpos e do tempo. Dos atentados aos (meus) pudores. Das dores.
Então eu acho bonita a sua história. E entendo que não é ao menino que me refiro quando penso em ferocidade e doçura. É a você. Por isso você é lírio e amazona. Por isso você é flor e crina ao vento. Por isso você é mãe e desbravadora de mundos. Por isso você é mulher tão bonita. E minha amiga.
Por causa de tudo isso, Flor de Lis.
Por causa de Lily e Hipólita.
Com amor,
Polímnia
Imagem: Man Ray (Calla Lillies)






Carla!
Que amor bonito esse: Que se expande e invade o mundo com delicadezas. Esse amor-amigo que traz a calma e suaviza as “rugas-medo”.
Flor de Liz deve estar feliz, bem feliz…
Beijos, doce Carla!
Ah, Jaia, querida, andando pela rua me veio à cabeça respostas, fragmentos loucos e soltos… mas se perderam já… no entanto, te peço um pouco de paciência… os fragmentos hão de brotar!
gostei muito de compartilhar sua angústia, infinitamente sua… tb tenho a minha e talvez elas possam conversar no dialeto do pavor para se transmutar em para sempre.
afago.