nov 26th
sexta-feira

oldlady memórias

Então ela me disse que aquilo era o mesmo que tortura. Que não havia diferença. Olhei para ela como se nunca. E, de fato, nunca. Não me fora dada a chance de saber dessas coisas, não sei se porque Deus me fez uma bondade ou porque não confia em mim. “Deve pensar que sou frágil…” – imaginei. O frio conforme o cobertor, dizem. E ela sabia tecer os mais sublimes cobertores. Eu sou toda nua, privilégio de quem conhece o tédio do paraíso. Ela, fogo. E tinha mais amor a Deus do que eu. Mas não tinha temor. Era ali, delicada e firme: uma mulher que já passou fome, que já esteve na prisão, que lutou por eles como se lutasse por si. Que lutou por eles mais do que lutaria por si. Se isso não é amor, já não sei o nome das coisas. “Nosso inimigo era a polícia…” – ecoava mansa. Mansa como todos aqueles que lutam. Diferente da minha histeria em meio às paredes e às grades que me protegem. Eu grito louca de paixão. Ela é paixão. “A gente era muito sapeca…”- contava rindo. Ria de suas miúdas resistências. De seus miúdos escapes. De seu jeito de burlar o médico, o policial, o torturador. Depois, seriamente, falava do medo. Deveria ter perguntado se eu já senti medo alguma vez. Eu responderia: “do escuro”. E da morte, da tortura, da prisão, do estupro, da loucura, da perda, do silêncio, da verdade. “Tenho medo da verdade”, eu diria. E ela entenderia. Entenderia porque conhecia os donos da verdade e sabia que verdade é sufoco. Verdade é espremer até confessar. Verdade é não entender o delírio. Verdade é não saber que o mutismo é um modo de dizer “não”. A verdade não aceita um “não, senhora” como resposta.

“Eu nunca conheci um torturador” – diria a ela. E ela responderia, se não fosse tão gentil: “Pois olhe-se no espelho, você, que se pretende doutora”. O medo. Ela tem medo de todos os medos do mundo. De como o mundo é permeado pelo temor. “Não sei mais pelo que lutar”. “Eu nunca soube”. Lutaria por eles. A gente não conhece a dor de ser silenciado para sempre. Desde sempre. A gente não conhece a dor do silêncio e tem mania de falar que alguém deseja nos calar. A gente tem é mania de chorar.

“Sou tão suave que dói”. Ela entenderia. Eu queria vê-la mais vezes. A gente morre diante da voz de quem parece miúdo. A gente é menor do que pensa e voa maior que qualquer coisa no mundo. Sou um fio de nada, uma pétala, um quase. Não existo. “A gente voa”. “Você diz isso porque não viu o que eu vi” – responderia ela, e acrescentaria suave e amorosa: “Mas, sim, a gente voa. Ele ali tem até voz de voador.”

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