segunda-feira
Mariazinha, a pequena, tinha os olhos – negros e fundos – vidrados no amanhecer. Era, então, hora de dormir. Mas ela não conseguia, não sabia, não podia. Quem a visse poderia até pensar – não sem certa razão – que havia anos que ela não tirava um cochilo. Punha o café para passar, faltava pão – muitas vezes faltava pão, mas a vizinha era boa e generosa e compartilhava a comida e algumas gotas de sossego. Maria mastigava devagar e pensava na noite e nos homens.
O último era enorme e peludo, feito um urso. Cobriu Mariazinha, a pequena, inteira. E meteu-se nela assim sem amor e com muita vontade, como se sentisse fome. Ela se lembrava agora, mas queria esquecer. Começara antes dos quinze anos. Era então ainda mais Mariazinha, ainda mais pequenininha, e seus olhos não eram tão fundos: eram negros e reluzentes e guardavam uma esperança gostosa que lhe fazia cócegas por dentro. Assim mesmo, como se lacrimejasse para dentro todas as vezes em que tinha vontade de chorar.
Quando fazia – quando acontecia de acontecer, por alguns trocados -, Maria fingia tirar a alma um pouquinho e deixá-la pendurada na cadeira junto com o vestido vermelho ou amarelo florido. Mal sabia ela que isso era impossível, que, quando estamos vivos, corpo e alma não se separam – nem por reza braba. Nem nos sonhos. Acontece, é claro, de termos sonhos de voar paisagens distantes, mas bem sabemos que nesses sonhos o corpo sente todas as vibrações de alegria, todas as fantasias. Do mesmo modo, quando se deitavam sobre ela assim desajeitados e perfuravam seu corpo – assim, ávidos, úmidos e pesados -, a alma sentia os furos e recebia gotas corrosivas de um veneno invisível. Porque também a alma é invisível. Mas sente. E Maria antes dos quinze, bem Mariazinha, tão pequena, sentia em sua alma o veneno, a morte, até mesmo a flor. A flor era quando sonhava e pensava que o espírito ia embora um pouquinho. Não ia. Nos sonhos bonitos o espírito forte acaricia o corpo, faz ternuras mansas para curar as feridas que nos atingem enquanto despertos. Mariazinha, sem saber, sabia. E sonhava. Sonhava muito. Mesmo acordada deixava a alma voar. Mesmo agora.
Agora era Maria maior e quase sempre desperta. De olhos fundos. Havia abandonado marido e duas filhas. Não suportara tanto. Era mais do que o peso de mil corpos ávidos. Mais do que os entorpecentes ácidos, a pedra do crack, mais, mais, mais. Era um excesso de dor. Não poderia contar: como faria, sem que a chamassem de monstro? Já diziam, antes mesmo de tudo, que era por culpa dela que as meninas não aprendiam. Como aprenderiam, se a escola era um pedaço do inferno? Em sua época, pelo menos havia sido, não seria o mesmo para as pequeninas? Perguntava-se agora se as amava. Não respondia. Só sabia que sim, porque é a lei de deus: mães amam seus filhos. E esposas amam seus maridos. A culpa era do entorpecente. Da fome. Daquele miolo de pão que lhe causava uma eterna ânsia e vômito. Do peso nos braços, nos seios, no ventre. “Perdoa, Jorge, um dia te escrevo para explicar”. Até que escrevia bonito. Na época em que ainda sabia dormir, rabiscava umas letras bonitas de poesias de amor. E umas orações. Quando ainda acreditava em deus. Porque era lei de deus: ele tira as coisas da gente quando a gente para de merecer. Ela não sabia bem quando havia parado de merecer. Chamava-se Maria e seu nome devia ser sagrado. Como o da mãe de deus. Era, no entanto, um nome entre muitas dores. Um nome assim fatigado. Que nunca mais dormia. Maria de olhos vidrados. Mariazinha, a pequena: aquela beleza frágil que se despedaçava no ar. Muitas vezes sangrava dolorida demais pra gritar. Mas diriam: “você escolheu assim”. Aqueles que acreditam naquela maldita ideia da escolha nossa de cada dia. Maria só acreditava nas flores. E, quando tentava dormir e conseguia, deixava a alma voar. Lá onde os sonhos acariciam o corpo. Era uma escolha. Miúda, mas uma escolha.
Ver Fuligem e Jorge e Marias






Todos eles, enormes, famintos, tendenciosos, apascentam esse corpo de sono sequestrado e causam sua letra, conduzem carne e alma à maceração pois deles é o rito do esmagamento festivo. Tanta violência e ardor é para dirigir a esfinge ao status de caricatura.