segunda-feira
Tinha medo do maldito mas, ainda assim, aprendeu a maldizer. Foi assim, quase sem notar: percebeu que aquilo funcionava. Antes era muda – silenciosa naquela infinita palidez dos invisíveis. Assustada. Mas aquilo funcionava: contar miúdas falhas da outra, do outro, daquela. Mesa farta, novas histórias: maldito o outro que errava, tropeçava, desandava, traía; maldito o outro que se permitia aparecer imperfeito – maldito o outro, e não importava a veracidade da maledicência. Maldito o outro, sempre. Maldito e risível. Reuniões maledicentes: muita graça – agora ela existia, a dona das histórias. A dona da palavra. Dona daquilo que mais temia: aquelas cócegas deliciosas na garganta que a faziam disparar palavras vãs, tantas palavras que a tantos agradavam, tantas desagradáveis, tantas. E era boa, a moça. Tão boa que lacrimejava fácil. Tão boa que recitava sonhos amanhecentes. Tão boa que acariciava. No entanto, fosse o que fosse sua bondade, o maldito a havia tomado. Porque era fácil. Era simples ter histórias para contar: era coisa de gente. Aprendeu que as histórias boas não eram bem ouvidas. Não se espalhavam. E não faziam com que aqueles que se fartavam na mesa farta se voltassem ávidos para ela – para ela, para ela, para ela. Tão inteiros para ela…
…ela…
Ela quem? Desconhecia-se tanto, embora soubesse dançar. E tivesse um bocado de bonitas ideias que saíam mágicas dos cinco dedos de sua mão esquerda. Tão sozinha, ela. Tão. Observadora, também enxergava belezas. Purezas. Encantos. Miúdas fadas citilantes e uma abelha azul nos cabelos crespos de Maria. Desde que aprendeu a falar, tentou contar essas doçuras. Ninguém ouvia. Teve que se contentar em mirar Maria em silêncio, dançar o mundo em segredo e calar suas abelhas coloridas. Maldizer era mais fácil. E a gente é o que a gente faz ser. Ela era fofoca, então. Fazer o que?
***
“Maria tinha abelhas azuis em seus cabelos crespos. Maria bendita, Maria bonita, Maria bailava. Diante de Maria, eu calava”. – murmurou secreta naquele dia em que decidiu se reinventar. As folhas das árvores ouviram suas bendicências. Ninguém entendeu que seu novo silêncio era um grito.
Às folhas. E àquelas abelhas nos cabelos de Maria.






‘ninguém entendeu que seu silêncio era um grito…’ grito… grito…
isso ressoa em mim como eco em rocha funda com cascata cristalina.
às bendicências que reinventam marias…
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Coisa que venho ruminando, e que teu texto me ajudou a aprofundar num pensamento-sensação: a transgressora experiência da solidão como moeda de troca do delírio da interlocução. Não obstante, fomos feitos para o abraço. Tua prosa é linda, Carla. Macia, mas sabe doer.
Um bj,
Adorei os “sonhos amanhecentes”.
Teu texto é grito, Carlinha. Ainda que em silêncio.
beijo, moça do caderno gordo.
(:
Muito Bom!
Ameii seu blog!^^ Belo texto!*—*