set 20th
segunda-feira

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Tinha medo do maldito mas, ainda assim, aprendeu a maldizer. Foi assim, quase sem notar: percebeu que aquilo funcionava. Antes era muda – silenciosa naquela infinita palidez dos invisíveis. Assustada. Mas aquilo funcionava: contar miúdas falhas da outra, do outro, daquela. Mesa farta, novas histórias: maldito o outro que errava, tropeçava, desandava, traía; maldito o outro que se permitia aparecer imperfeito – maldito o outro, e não importava a veracidade da maledicência. Maldito o outro, sempre. Maldito e risível. Reuniões maledicentes: muita graça – agora ela existia, a dona das histórias. A dona da palavra. Dona daquilo que mais temia: aquelas cócegas deliciosas na garganta que a faziam disparar palavras vãs, tantas palavras que a tantos agradavam, tantas desagradáveis, tantas. E era boa, a moça. Tão boa que lacrimejava fácil. Tão boa que recitava sonhos amanhecentes. Tão boa que acariciava.  No entanto, fosse o que fosse sua bondade, o maldito a havia tomado. Porque era fácil. Era simples ter histórias para contar: era coisa de gente. Aprendeu que as histórias boas não eram bem ouvidas. Não se espalhavam. E não faziam com que aqueles que se fartavam na mesa farta se voltassem ávidos para ela – para ela, para ela, para ela. Tão inteiros para ela…

…ela…

Ela quem? Desconhecia-se tanto, embora soubesse dançar. E tivesse um bocado de bonitas ideias que saíam mágicas dos cinco dedos de sua mão esquerda. Tão sozinha, ela. Tão. Observadora, também enxergava belezas. Purezas. Encantos. Miúdas fadas citilantes e uma abelha azul nos cabelos crespos de Maria. Desde que aprendeu a falar, tentou contar essas doçuras. Ninguém ouvia. Teve que se contentar em mirar Maria em silêncio, dançar o mundo em segredo e calar suas abelhas coloridas. Maldizer era mais fácil. E a gente é o que a gente faz ser. Ela era fofoca, então. Fazer o que?

***

“Maria tinha abelhas azuis em seus cabelos crespos. Maria bendita, Maria bonita, Maria bailava. Diante de Maria, eu calava”. – murmurou secreta naquele dia em que decidiu se reinventar. As folhas das árvores ouviram suas bendicências. Ninguém entendeu que seu novo silêncio era um grito.

Às folhas. E àquelas abelhas nos cabelos de Maria.

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