jan 2nd
segunda-feira

esculturas de fumaça 3 Jorge e Marias

O fios da vida roídos pelos dentes fracos daquele rato verde: Maria dilacerou o delírio, pôs um fim àquela farsa e deu à luz Jorge, miúdo Jorge do mundo – que seria santo, amante ou pescador. Ou tudo junto. Ajudante de pedreiro,  mecânico, secretário, namorado, príncipe, doutor. Mas Maria era louca e todo mundo começou a acreditar que filho de peixe é peixe miúdo, sem caminho outro a seguir. E Jorge era peixe louco, nascido do delírio triste de Maria: os ratos verdes que roem o fio da vida, feito esperança vil que encontra paz na morte. “Verde, Maria, é a morte, pois só lá há esperança. Só lá.”

Jorge peixe, rato, pássaro e leão. Abriu as asas e bagunçou a juba no matagal, sentindo que as folhas podiam também usufruir daquele fino amor de mãe – amor de Mariazinha. Mas Mariazinha, a pequena, era a namorada e não a mãe. Mariazinha, a pequena, tomou-o pela mão esquerda e pediu que nunca partisse e Jorge prometeu sua primeira promessa sem saber se poderia cumprir. Beijou Mariazinha, a pequena, e ele também pequeno, deitou-se ao lado dela e esperou o sol dormir. Que dizem que o sol dorme para acordar a lua e a lua era Mariazinha, miúda Mariazinha, faminta Mariazinha; Mariazinha dos sonhos – os doces sonhos de Jorge: amanhã acordaremos grávidos de flor e teremos um mundo nosso. Mas faltava água. E Mariazinha ainda sentia fome. Engravidou não de flor, mas de duas Mariazinhas, miúdas, miúdas, miúdas. Lindas. Jorge era pai sem delírio e ensinava coisas retas às pequenas: o que pode, o que não pode, o jeito que deus ensina a gente a viver.

Mariazinha ressentiu-se um dia – sei lá do que – e foi embora voando, meio louca, meio sã, e diziam as más línguas de todos os donos das leis  (das saúdes e das escolas) que as meninas – as Mariazinhas miúdas – tinham dificuldade de aprendizagem porque a mãe era puta. Quanto a Jorge… Oh, Jorge: o pai. Nem sabia enlouquecer. Nem podia. Tinha Marias que não sabiam aprender. Nem ele. Queria contar que aprender era difícil para aqueles a quem não é dada a palavra que governa o mundo. Qual é a palavra que governa o mundo? Sentia falta de Mariazinha, a pequena, sua primeira amada da primeira lua de sonhos. Sentia falta de Maria, a mãe, e da loucura que herdara e não podia sentir. Jorge era todo feito de utilidades e precisava fazer certo. Jorge era instrumento de deus e dos homens e trabalhava as dores da vida, as dores de si e do mundo. Trabalhava e alimentava Marias, trabalhava e comia pouco, trabalhava e sorria um tanto, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Até que foi. E foi.

A gente não sabe bem o que acontece quando se perde tudo. Jorge perdeu Marias e sossegos. Trabalho e casa. Tudo varrido pela chuva, pelo ódio e pelo amor. Restou-lhe o miúdo delírio, dos tristes ratos verdes: o doce delírio da Mãe – Maria -, a Esperança.

Maria, Jorge, Mariazinha e miúdas Marias. E uma antiga esperança de tudo se acertar. Sei que não é na morte, sei que não. Jorge, afinal, palpitava macio um coração delicado no dia em que me surgiu. Podia ser outra a sua história. Talvez fosse. Mas gostei de imaginar, em seus olhos, Marias e luas e ratos e saudades. “Sua história, Jorge: um dos possíveis você.” – não sei se ele ouviu.

 

(ler Fuligem)

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