quinta-feira
- É que eu não quero mais falar… – murmurou.
Exigiam que ele falasse. Queriam que ele confessasse. E depois insistiam em dizer: “é para o seu bem, meu bem!”.
*
Temores. Tremores. Beco. Vento. Estrada. Ele era meu filho. Naquele instante: breve assim. Eu sabia que não suportaria ser mãe por muito mais tempo do que aqueles minutos que ele segurava com ansiedade: as mãos miúdas agarrando o passar dos dias e capturando levezas. Quem carregaria o que passa, senão ele? Ele, que perdeu: perdeu muita coisa. E eu fiquei pensando na dor maior do mundo – que não é a dele, nem a minha. A dor maior do mundo não pertence a alguém. Essa imensidão de tragédia não é coisa que se faça em um só corpo, embora todo e qualquer corpo possa adivinhá-la. Sim, adivinhamos. Ele mesmo, ali diante de mim, adivinhou muitas existências: enquanto eu me deixava atravessar pela penúria que ele trazia marcada na mãozinha esquerda e no olhar baixo, ele me invadia inteira procurando amor. E adivinhou: havia amor aqui. Podia antever, ainda assim, – pequeno adivinho que era – minha angústia de fuga: desde o primeiro passo que eu dei para longe dele. “Eu não sei ser mãe…” – quase murmurei, como se pedisse desculpas. E ele procurava uma amiga. Procurava um atravessa-mundos: pontes jamais levadiças e uma terra sem castelos. Eu morava em um castelo. Ele, ali. Eu tinha urgências que para ele pareciam não fazer sentido: como aquela minha vontade de ganhar um mundo que a ninguém pertencia. E ele ria. Sei que ria. Crianças riem. Ria da mobília em cores suaves e gargalhava danado dos meus medos pequenos. Mas não sorria. Era sério, profundamente sério, sendo ainda tão criança. Era o pequeno filho de alguém que se foi para sempre. Fazia aquele silêncio de mestre. Era menino, velho, avô. Tão miúdo. Fez um desenho bonito de doer – e colorido. E me contou uma história tão triste que eu envelheci pra sempre. Contou sabendo que eu não entenderia por completo. Nasceu com uma sabedoria que levei anos para adquirir: a de que a compreensão é impossível, de modo que ao outro resta apenas acolher…
*
Não sei se acolhi bem. Só sei que ele não pediu mais do que aquilo que eu sorri. Deixou-me com minhas fantasias. Intuiu a vastidão que eu me inventava e meus braços-farsa que acariciavam o mundo. Eu era impossível, mas encontros entre impossíveis produzem concretude – e novas imensidões nasceram: miúdas. Tanto que, dias depois, ele me contou uma história. Feliz. Contou baixinho e breve: não gostava muito de gastar palavras…
Ele não sabe, mas me curou…
(…de que?)
*
- Mas você não entende? Eu ainda não quero falar.
E o silêncio se fez sólido e dançou entre nós. Quando queremos ir embora e não sabemos para onde, só o silêncio faz sentido: única liberdade possível. Havia palavras ali: mas nem eu nem ele fizemos questão de dizê-las – formadas, elas nos matariam. Eu sei: a palavra já me matou diversas vezes…
Imagem: Jeep Novak






De tanto amar
a vida cansa, diz uma canção.
Mas criança miúda
capaz de falar com seu “ainda não”
faz ponte
de coração pra coração.
E quando o amar pode ser tantas outras coisas
- inclusive vazios,
-inclusive estradas,
-inclusive silêncios,
becos desenhados por dedos curandeiros,
podem atravessar-mundos.
Emprestamo-nos – sem sabermos.
Mas, sim:
estamos ali.
Gostei tanto desta escrita, e ela disparou em mim tantas coisas, vc nem sabe, mas é muito forte o que suas palavras trazem.
Obrigada,
minha muito querida!
saudade de ti?
sempre!
que lindo ficou aqui
carla, MARAVILHOSO!
fiquei emocionada!
ainda mais porque tenho encontrado esse filho que não saiu da minha entranha, mas, pelo contrário, que minha entranha buscou, acolheu, colocou para dentro de mim para sempre.
obrigada por essa benção.
grande beijo.
carla:
retorno.
um beijo.
romério