domingo
É de tudo o que deságua no escuro da manhã, do lado de lá do urbano, do lado de fora daqui, do lado lá longe de nós. Do outro lado da rua. Onde já não posso caber. Lá mesmo, ela segurava uma sacolinha plástica, aberta ao céu, e esperava que caísse a estrela que cintilava no coração da mãe morta. Sempre eram estranhas essas juventudes outras, jamais acolhidas em nossos lados e círculos, em nossa festas, em nossas honras, no amor que sentíamos por nossos talentos vãos – nós, que éramos plenas de brilhantismos óbvios e conhecíamos as músicas da moda. Ela não era eu – nunca na vida seria. Acreditava em corações queda-céu e sabia ler umas poucas palavras vogais – nada mais. O silêncio denunciava estupidez, diziam. Como se entendessem. Ela, que sabia disso, calava-se um pouco mais a cada tempo: era preferível fingir tolice a permitir que lhe roubassem os sonhos – aqueles poucos. E, porque ali vivia, ali também conhecia pedacinhos de morte que lhe feriam a pele. Sabia que o macho era perigoso e que algumas gotas mágicas tornavam a dor coisa esquecida e os perigos da noite, invisíveis. Comprava as gotas-mistério com o dinheiro que roubava secreta e com as moedas que pedia vítima. Fazia-se porque sabia. Sabia tanto, que doía – em toda a pele, no estômago, nas unhas e no pensamento. Era humana inteira, veias trêmulas. Fazia vida ali, onde conseguia, enquanto eu romantizava mundos que não me feriam-carne; eu era um tanto porcelanada. Eu era poeta e queria falar das infinitas vidas possíveis. Mas aquilo ali era impossível. Se acontecia, era só porque o respirar existe e o desejo resiste. Acontecia vida ali porque havia também impossibilidade aqui – como se esses caminhos tão díspares dependessem um do outro para a parca existência de cada. Existíamos pouco, ela e eu. Mas a minha imagem era mais amada. E eu me aproveitei disso o quanto pude, até morrer.






Muito bem-vinda, Carla. Imagino que você chegou ao meu blog pelo Blog da Beta. Vim retribuir-lhe a visita e fiquei assombrado com a sua poética. Li o texto abaixo e li, agora, este primeiro. Até agora as imagens desses (e desse em particular) estão ecoando. Ecoam o “era preferível fingir tolice a permitir que lhe roubassem os sonhos”. Ecoa a sacola aberta ao céu de estrelas. Vou inaugurar um caminho mais rápido para te visitar sempre a partir do meu blog.
Beijos
Texto belo e sensível.
Aplausos!
Carla,
acho que o comentário que fiz por aqui pra você, anteriormente, não foi salvo. Mas, por via das dúvidas, te respondi também lá no meu blog.
Acho um privilégio poder ler, pela primeira vez, algo. Vivemos num mundo cheio de clássicos, cuja leitura é obrigatório. E nos envergonhamos, sem razão, por não ter lido várias coisas. Como se essas coisas, essas leituras, esses autores não nos pudessem estar esperando lá na frente.
No fim do ano passado, li pela primeira vez, Hilda Hilst (e me assombrei). Este ano, foi a vez de descobrir Hermann Hesse (será a época dos ‘Hs’?).
No mais, agradeço suas palavras, sempre tão generosas.
Já ia me esquecendo de te dizer que eu cheguei à Alice pelo teatro. Assisti a duas peças antes de ler as obras de Carroll. Depois é que os textos me caíram às mãos. E os pude ler assim, já cheios de imagens e sabendo a ressonância e a embocadura de muitas coisas ali escritas…
Acho que agora está dando certo. Então trago pra cá o comentário que era para estar aqui desde o dia 07/06:
Muito bem-vinda, Carla. Imagino que você chegou ao meu blog pelo Blog da Beta. Vim retribuir-lhe a visita e fiquei assombrado com a sua poética. Li o texto abaixo e li, agora, este primeiro. Até agora as imagens desses (e desse em particular) estão ecoando. Ecoam o “era preferível fingir tolice a permitir que lhe roubassem os sonhos”. Ecoa a sacola aberta ao céu de estrelas. Vou inaugurar um caminho mais rápido para te visitar sempre a partir do meu blog.
Beijos
Sou só respeito depois desse texto. Tudo que eu disser fere o gotejar da nudez. Tão dentro; explode, também em mim, a inteira humanidade, os talentos vãos, os perigos da noite. Tudo trêmulo, mas tanto. Recebo, atenta, as estrelas que caem do seu céu.
Sou só respiro*
Respeito também, é claro. =)
“Onde já não posso caber.”
Assim.
Gosto de ler seus textos lá no site E-books…
não sei se comentei aqui, mais postei uns textos seus no meu espaço. Caso tenha problemas, avise-me. Fiquei na dúvida se tinha dito ou não…
Suas palavras me lembraram um texto do Caio F.
Viajei aqui…
beijos.
Eu fiquei simplesmente encantato com toda essa poesia contida. Obrigado. Estou te seguindo. @justbrunos
Eu te disse que me perdi no meio desse texto. Pq ela q aguardava a estrela cintilante cair com a sacola plástica, e ela que era poeta descrevendo vidas possíveis, todas as duas, sou eu também
Mais uma vez me pergunto pq é mesmo q eu demoro tanto tempo pra voltar ao baile quando o que eu mais gosto é de dançar.