sexta-feira
“Ela não vive mais aqui” – respondia. A quem batesse à porta, a quem gritasse alto lá fora, a quem chamasse. Por telefone, nada. “Ela não vive mais aqui” – respondia e depois chorava baixinho no quarto escuro. Era saudade. Ou vontade. Queria dizer ao mundo inteiro: “Ela morreu, morreu, morreu”. Mas não conseguia morrer. Não quando era convocada a re-existir todos os dias, sempre a mesma. Não quando era chamada pelo mesmo nome de séculos atrás: o nome de sua prisão, da verdade marcada a ferro e fogo em seu braço; o nome de sua escravidão e de todas as pedras que carregou e de todas as roupas que ainda lavaria e de todos os chãos que arranhariam quentes os seus pés descalços. O nome da sua história: a marca de um para-sempre. E ela sonhava com o nunca-mais. E o nunca-mais descia em festa, bailando todas as cores da nova vida e dos braços livres, das mãos prazerosas e dançantes, daquilo que escorria quente bem ali: ânsia, desejo, fúria. Orgasmos vertendo doçura: ou quase. “O nunca-mais, o nunca-mais” – ela implorava.
“Hoje, sem ela: eu. Desato nós. A dança.”
Desconexa, persistia: negava os telefonemas, os gritos lá fora. Negava o nome e o sobrenome: comia todas as letras dos artigos que a indicavam fêmea: uma. E nunca mais.
“Ela foi embora para sempre. Não vive mais em mim. Não me procurem mais,
adeus.”
- dizia às pressas, até que.
E nunca mais foi vista.
Imagem: Noire et Blanche (Man Ray)





