mai 13th
quinta-feira

areia ferida furo

Findo  o tempo, fim do dia…

A Terra parecia tremer porque o mundo aqui dentro revolvia.

Ela mexia na areia como se pusesse as mãos nas entranhas: era cirurgiã do chão que adoecia. E quando o vento cantou funebridades, ela enterrou na areia o segredo. Suas secretas pegadas eram leves; a violência ela guardava em uma caixa. A casa ao longe aguardava sua chegada: ela, imunda, não queria se lavar.

Ela: a gente não sabia, mas era. Ela era. E, porque era, sabia. Sabia de tudo um pouco e inventava leituras nas pedras. Um dia parou de falar – para sempre. Achava um exagero essa coisa das palavras. Esse uso excessivo de todas as coisas. Escrevia; ou melhor: desbagunçava as letras. Não havia, de fato, aprendido a escrever, mas as letras desbagunçadas formavam mundos. Ela cirurgiava o chão e feria os tecidos da Terra: queria que as pedras gritassem de dor e sangrassem. Só para ter certeza de que os animais não eram os únicos a sofrer no mundo. Ela era animalzinha: orgulhava-se. Às vezes relinchava, às vezes rugia. Às vezes borboleteava portão afora: era tão pequena.

Quem temia pelo seu futuro não sabia. Não sabia que ela morreria tão cedo, na mais serena das manhãs. Ela desconfiou que o mundo clamava por utilidades. Seu corpo relinchante adivinhou essa tortura. Borboleteou ali mesmo na areia. Suave despedida. Deixou algo escrito – arranhando o chão. Eram letras desbagunçadas na pele aflita da areia. Quem leu, não compreendeu. O vento balançou, fez um lá e cá, rodopiou: passou. Tudo passou…

Ela passou. Passou como se jamais houvesse estado: nossa dor e cura.

Imagem: Steven Smith

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