quinta-feira
Findo o tempo, fim do dia…
A Terra parecia tremer porque o mundo aqui dentro revolvia.
Ela mexia na areia como se pusesse as mãos nas entranhas: era cirurgiã do chão que adoecia. E quando o vento cantou funebridades, ela enterrou na areia o segredo. Suas secretas pegadas eram leves; a violência ela guardava em uma caixa. A casa ao longe aguardava sua chegada: ela, imunda, não queria se lavar.
Ela: a gente não sabia, mas era. Ela era. E, porque era, sabia. Sabia de tudo um pouco e inventava leituras nas pedras. Um dia parou de falar – para sempre. Achava um exagero essa coisa das palavras. Esse uso excessivo de todas as coisas. Escrevia; ou melhor: desbagunçava as letras. Não havia, de fato, aprendido a escrever, mas as letras desbagunçadas formavam mundos. Ela cirurgiava o chão e feria os tecidos da Terra: queria que as pedras gritassem de dor e sangrassem. Só para ter certeza de que os animais não eram os únicos a sofrer no mundo. Ela era animalzinha: orgulhava-se. Às vezes relinchava, às vezes rugia. Às vezes borboleteava portão afora: era tão pequena.
Quem temia pelo seu futuro não sabia. Não sabia que ela morreria tão cedo, na mais serena das manhãs. Ela desconfiou que o mundo clamava por utilidades. Seu corpo relinchante adivinhou essa tortura. Borboleteou ali mesmo na areia. Suave despedida. Deixou algo escrito – arranhando o chão. Eram letras desbagunçadas na pele aflita da areia. Quem leu, não compreendeu. O vento balançou, fez um lá e cá, rodopiou: passou. Tudo passou…
Ela passou. Passou como se jamais houvesse estado: nossa dor e cura.
Imagem: Steven Smith






Meu Deus, é tanta beleza, essa de se agigantar e se encolher pelo prazer de metamorfosiar, rugir e voar, coisas que gosto, como gosto de te ler!
Faço coro com a Cora. rs
E, para além das aliterações, qdo chego aqui me deparo com um outro tempo e sempre me pergunto: ” o que será que a inspirou para construir essa história? como ela veio até a carlinha?” e fico imaginando vc, com seu olhar singelo, observando cuidando das pequeninas coisas esquecidas por todos que têm muito zelo pelas coisas grandiosas.
um grande beijo, minha querida, vc é uma fonte frondosa!
já topei!
qdo começamos?
;******
Linda.
“Ela: a gente não sabia, mas era. Ela era. E, porque era, sabia.”
ah, carla, que belíssimo isso!
e achei esse primeiro parágrafo também cheio de emblema: cirurgião do chão, a violência numa caixa, o segredo enterrado…
Que importa o sentido se tudo vibra?
Cheguei tarde, ela havia desexistido. Muito digna nessa lacuna: quem ofegava era eu.