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	<title>Baile de Máscaras</title>
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		<title>histórias de fora (ao pai)</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 10:32:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[cartas]]></category>
		<category><![CDATA[carta]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>

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		<description><![CDATA[Papai, (deixo que a palavra se despedace amolecendo na minha boca: amor escorrendo feito um antigamente.) Papai, Já não sei o que em ti procuro hoje e não entendo bem o que andei procurando durante esses tantos anos. Costumava saber. Confesso que costumava ter a certeza de que procurava em ti a verdade de mim: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/soulfulgrace.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2170" title="soulfulgrace" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/soulfulgrace.jpg" alt="soulfulgrace histórias de fora (ao pai)" width="400" height="450" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Papai,</p>
<p style="text-align: center;">(deixo que a palavra se despedace amolecendo na minha boca: amor escorrendo feito um antigamente.)</p>
<p style="text-align: center;">Papai,</p>
<p style="text-align: center;">Já não sei o que em ti procuro hoje e não entendo bem o que andei procurando durante esses tantos anos. Costumava saber. Confesso que costumava ter a certeza de que procurava em ti a verdade de mim: o que me fazia frágil e inteira, o que dava o tom da minha voz e inventava minha sabedoria. Era simples como adormecer ouvindo o livro que lias para mim quando eu já sabia ler até de trás pra frente. Simples como acreditar em deus. E fazer promessas infinitas de medo da morte: todos os Painossos e todas as Avemarias do mundo para nosso mundo não acabar. Ou não te contei que tinha manias de penitências? Ainda hoje, papai, ainda hoje. Prostro-me diante de um altar qualquer e já nem sei o que dizer, mas digo em línguas de sofreguidão. Mas não se converteria esse desespero sem rumo em algo perfeitamente compreensível quando ouvido pelos deuses nas alturas? Não saberiam eles de todas as coisas?</p>
<p style="text-align: center;">Ah, era simples. Hoje, não. Hoje, despeço-me das histórias fáceis e teço as linhas complicadas das vidas que se erguem e se perdem em um segundo: minhas muitas vidas em mim. E lá fora. Lá fora, papai, porque sei que pouco vale a minha história se não toca outras faces, se não se mistura a cada pedaço de história que fez meu corpo múltiplo: é que cada célula minha é desenhada pelas línguas daqueles que me inventam. Algumas, cruéis. E, se não há como fugir, ao menos preciso responder às vozes duras que por vezes me apequenam. Responder com força e vigor: desinvento-me enquanto é tempo, sigo o vento. Depois adormeço. O sossego é sempre bom. E, ao fim e ao cabo, talvez só queira mesmo ouvir, mansa e feliz, a história de um livro que já sei ler. Contada por outra voz.</p>
<p style="text-align: center;">Despeço-me, pois, confusa: sinto saudades de mim. E, no entanto, estou ainda aqui e aí: aquela que ama as histórias vindas de fora, porque a voz do outro é melodia de amor.</p>
<p style="text-align: center;">Ternuras, papai, ternuras.</p>
<p style="text-align: center;">Jaia</p>
<pre style="text-align: right;">Imagem: Soulful Grace IV (Monica Stewart)</pre>
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		<title>A uma mulher (ou muitas)</title>
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		<pubDate>Sun, 06 May 2012 02:14:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[meninas]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Feminino]]></category>
		<category><![CDATA[feminista]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>

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		<description><![CDATA[Pena vento travesseiro por trás dos suores da tarde sentia as lembranças mais finas. ela. as cartas e os alfinetes. o sangue nascendo de si: fonte viva - como da primeira vez que vem no escuro da casa da avó um segredo de menina. como quando tinha voz e não podia falar: guardava no peito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/monicastewart.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2165" title="monicastewart" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/05/monicastewart.jpg" alt="monicastewart A uma mulher (ou muitas)" width="469" height="500" /></a></p>
<p>Pena vento travesseiro<br />
por trás dos suores da tarde<br />
sentia as lembranças mais finas. ela.<br />
as cartas e os alfinetes.<br />
o sangue nascendo de si:<br />
fonte viva<br />
- como da primeira vez que vem<br />
no escuro da casa da avó<br />
um segredo de menina.<br />
como quando tinha voz<br />
e não podia falar:<br />
guardava no peito um macho<br />
que não soube despertar<br />
- anjo viril e inteiro:<br />
finito. tal e qual nome de homem.<br />
é que a fêmea não tem fim<br />
- já que jamais começou -:<br />
guarda um nó e depois outro<br />
enlaça as tantas de si<br />
que reinventa cantando<br />
nos partos das muitas irmãs<br />
enterradas para sempre<br />
silentes, potentes, viventes:<br />
gritos de vida guardados<br />
urgências de amor dissipadas<br />
desejos de paz massacrados.<br />
ela. tão ela!<br />
conhece, sabe e sente:<br />
no rabo da cascavel<br />
vive uma fada-cigana<br />
e na memória da avó<br />
mora um velho e bom sonho<br />
feito a vontade de deus.<br />
ela. incomeçada e sem fim<br />
maior que o mundo<br />
- pequena -<br />
nascida de um poema:<br />
o sonho da avó &#8211; liberdade<br />
a fada-cigana: veneno!</p>
<pre style="text-align: right;"> Imagem: Ethereal Grace (Monica Stewart)
</pre>
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		<title>Boneca</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Apr 2012 19:41:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[meninas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tanto quanto era difícil ser o brinquedo da mãe. Uma boneca linda e intocável. Ou o pequeno monstro perigoso: cheia de veneno. Tanto quanto podia, respirava. Sufocava-se nas dores que nem mais sentia. Como se fosse. E então era: a bruxa. Tinha para si que ser a bruxa era uma dádiva raríssima. E terrível. Acreditava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/boneca.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2154" title="boneca" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/boneca.jpg" alt="boneca Boneca" width="500" height="365" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Tanto quanto era difícil ser o brinquedo da mãe. Uma boneca linda e intocável. Ou o pequeno monstro perigoso: cheia de veneno. Tanto quanto podia, respirava. Sufocava-se nas dores que nem mais sentia. Como se fosse. E então era: a bruxa. Tinha para si que ser a bruxa era uma dádiva raríssima. E terrível. Acreditava tão terrivelmente nos próprios dons que passou a se inventar adivinha dos males do mundo: a morte e a desgraça. O fim. O vômito incessante do filho que um dia lhe nasceria morto. E agora segurava o filho morto com um aperto tão fundo, tão fino, tão único: era como se pudesse adivinhar o dia de sua própria morte. Era sempre, sempre, sempre o fim. Ninguém entendia. Ninguém sabia, mas suas cores cintilantes que dançavam suaves na tentativa de provocar alegrias eram a sua maior e mais premente farsa. Era só assim que podia esconder o absurdo de guardar em si o extremo vazio de ser a coisa vazia da mãe: aquilo que jamais será. Não era. Permanecia estática em seu não-desejo. Fazia-se fada para as almas carentes. E mulher para os escassos amantes. Mas era apenas uma bonequinha triste. Uma pintura linda. Aveludada e eterna. Como aquilo que não morre porque jamais viveu. Como o filho sonhado que jamais nasceu. Era só aquele vômito incessante que insistia em fazer-se quente: sua vontade de ter uma voz.</p>
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		<title>Carta &#8211; Durma bem</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Apr 2012 22:09:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>

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		<description><![CDATA[Tontear, Hipólita. Bambear na doçura desse vinho que lhe ofereço agora. Peço que descanse. Descanse o sono das mulheres que se abraçam suaves no céu das deusas. Eu diria, em outro momento, para ouvir a voz do pequeno. Mas o pequeno está aí em você e estará ainda por tanto tanto tempo. O pequeno e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/diana_adormecida.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2141" title="diana_adormecida" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/diana_adormecida.jpg" alt="diana adormecida Carta   Durma bem" width="500" height="407" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Tontear, Hipólita. Bambear na doçura desse vinho que lhe ofereço agora. Peço que descanse. Descanse o sono das mulheres que se abraçam suaves no céu das deusas. Eu diria, em outro momento, para ouvir a voz do pequeno. Mas o pequeno está aí em você e estará ainda por tanto tanto tempo. O pequeno e o outro. O coração que lhe bate múltiplo: vocês ambos. Vocês três. Vocês todos. Hipólita, eu quero ouvir você. Ressonar a quentura das fadas, o mel, o doce, o sopro das sereias. Minha amiga, o nosso cansaço nasce da falta de carinho que a aspereza do tempo provoca em nós. Por isso aquela tarde foi tão feliz quanto amar ao infinito: havia uma amiga e umas palavras trocadas. Um murmúrio. Um segredo. Depois a cama do homem e o gozo. Pedi que ele fizesse com mais desejo, com um tanto de fúria. Mas a fúria era minha. A fera era eu. Não sei se ele entendeu. Às vezes quero que ele entenda para além dos meus montes vivos de curvas calorosas. Quem ouvirá minha louca máquina de pensar gigantezas? Tenho o sonho de colocar em funcionamento meus desejos. Mas é tudo tão árduo, minha Amazona. É como se raspasse por dentro &#8211; o coração. Então o corpo amolece inteiro nas vísceras e eu me finjo aí fora. Só pra fazer de conta que vou acordar feliz. Com um nome. O meu nome.</p>
<p style="text-align: center;">(qual é mesmo o meu nome?)</p>
<p style="text-align: center;">Durma bem, amiga minha. Suave e silenciosa. Para ouvir a sua voz. Aquela antiga. Do tempo da deusa louca das cavernas. Era uma corça. E tinha os olhos mais negros do mundo. Como o buraco da noite em mim. Meus furos.</p>
<p style="text-align: center;">Amor, Hipólita, amor. Por nós.</p>
<p style="text-align: center;">(qual é mesmo o meu nome?)</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<pre style="text-align: right;">Imagem: Diana Adormecida - Giuseppe Mazzuoli<span style="font-size: xx-small;"> </span></pre>
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		<title>A palavra do Homem</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2012 13:53:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[meninas]]></category>

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		<description><![CDATA[Acompanhei a desova da chuva: princípio de amor. Pensei que deixaria ali rastros de fertilidade para a alegria vindoura: era aquela época em que eu acreditava que a terra era fêmea. Minha mãe, minha mulher, minha amante. Mas não. O vento secou a ternura e só restaram cálculos vazios: o que fazer com as moedas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/chuva1.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2135" title="chuva1" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/chuva1.jpg" alt="chuva1 A palavra do Homem" width="430" height="315" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Acompanhei a desova da chuva: princípio de amor. Pensei que deixaria ali rastros de fertilidade para a alegria vindoura: era aquela época em que eu acreditava que a terra era fêmea. Minha mãe, minha mulher, minha amante. Mas não. O vento secou a ternura e só restaram cálculos vazios: o que fazer com as moedas de amanhã, arroz ou entorpecente? Joana adormeceu na calçada e muitos ouviram dizer que os homens &#8211; aqueles homens da lei &#8211; despiram-na sem pudores e culparam suas curvas nascentes. Sempre há curvas a serem culpadas, já dizia aquela que nasceu mulher e aprendeu a se esconder assustada nas esquinas escuras. Ela quis defender Joana mas já não tinha forças para se levantar e não tinha coragem para denunciar: ninguém diz o nome do Homem e sai impune. E na vida há crimes mais importantes, contam por aí. Restou a ela, então, acolher Joana em um abraço infinito: &#8220;nós duas na rua e nossos corpos expostos mas tudo vai ficar bem até o próximo minuto se deus quiser amém. Amém. Amém. Amém&#8221;. Joana mal ouviu. Sentiu foi uma suave gota de amor em sua bochecha esquerda. Devia ser a chuva. Um rastro de fertilidade para a alegria vindoura. Quando a palavra do Homem não mais valerá. Nunca nunca nunca mais. &#8220;O Apocalipse vai ser nossa revolução&#8221;.</p>
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		<title>João de mim</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Apr 2012 02:06:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[cartas]]></category>

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		<description><![CDATA[Deixei que o frio abocanhasse nossas últimas cartas, João de Mim. Por isso me esqueci de quando me punha em poses provocantes inventando sussurros em minhas curvas &#8211; aquelas feitas sob medida para suas mordidas certeiras. Era simples e frágil: eu queria o amor e nada mais. Murmurava &#8220;João de Mim&#8221; enquanto você respirava quente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/manray.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2130" title="manray" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/04/manray.jpg" alt="manray João de mim" width="562" height="700" /></a></p>
<p style="text-align: center;">Deixei que o frio abocanhasse nossas últimas cartas, João de Mim. Por isso me esqueci de quando me punha em poses provocantes inventando sussurros em minhas curvas &#8211; aquelas feitas sob medida para suas mordidas certeiras. Era simples e frágil: eu queria o amor e nada mais. Murmurava &#8220;João de Mim&#8221; enquanto você respirava quente em minha nuca: eu era toda nua ali, pescoço à mostra &#8211; inteira para a peçonha da cascavel. Transmutava-me em João-menino: pés descalços, braços nus, nós amantes transpirando todo o bater de asas das borboletas azuis. Tínhamos mais de oitenta anos e éramos duas fadas. Mas você era rijo feito macho e brincava de ser. Eu, de minha parte, preferia os poetas e desenhava em seu corpo a maciez da minha própria existência: sempre fina. Sempre linda. Sempre triste. Abocanhava seu gozo e me lambuzava de paz: agora era como se fôssemos acordar e eu não precisasse mais. Entende, João? Eu quis você em mim para poder sarar. Só que não havia cura. A gente nasce, amor, e é irreversível. Depois disso, apenas a procura. Daquilo que, em mim, faz você acordar inteiro: minha fera, em saliva e fúria &#8211; o desejo. Suas garras, João. As minhas: &#8220;Arranha aqui, nas minhas cócegas. Faz um prazer danado de bom!&#8221;</p>
<p style="text-align: center;">&nbsp;</p>
<pre style="text-align: right;">Imagem: de Man Ray
</pre>
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		<title>Carta &#8211; Minha dúvida</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Mar 2012 10:42:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[cartas]]></category>
		<category><![CDATA[carta]]></category>
		<category><![CDATA[eva]]></category>
		<category><![CDATA[lilith]]></category>
		<category><![CDATA[rainha de copas]]></category>

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		<description><![CDATA[Flor de Lis, Seus lábios amaciam as horas e produzem a doce melodia de ninar bebê. Assim sei que você está aí e pede alguns de meus segredos. Ou a aspereza desses dias que me secam a língua, a voz, o desejo. Minha amiga, faz tempo que não produzo uma gota de saliva sequer. Nem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/lilith.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2119" title="lilith" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/lilith.jpg" alt="lilith Carta   Minha dúvida" width="500" height="345" /></a></p>
<p>Flor de Lis,</p>
<p>Seus lábios amaciam as horas e produzem a doce melodia de ninar bebê. Assim sei que você está aí e pede alguns de meus segredos. Ou a aspereza desses dias que me secam a língua, a voz, o desejo. Minha amiga, faz tempo que não produzo uma gota de saliva sequer. Nem para regar as miúdas flores tristes que murcham assustadas ali no canto da sala. Nem.</p>
<p>Sinto falta de Maria. Maria arde uma vontade imensa da palavra que crava na alma &#8211; a nossa palavra desejante. Pois foi assim: quando ela nasceu em mim, nasci revolução. Deixei que meus pelos crescessem e permiti uma nudez nos seios: peito aberto e ânsia de luar. Sob o céu da noite, Maria é a história da minha história, Maria é nossa primeira mulher &#8211; Eva ou Lilith -, erguendo-se simples e infinita como quem almeja não o poder, mas a liberdade. E assim é sempre mais difícil, Flor de Lis &#8211; meu lírio, minha amiga, meu amor. Ou você não concorda que é mais fácil desejar o poder? Fantasio-me de rainha e tenho lindos pés para maltratar as costas arruinadas daqueles que jazem lá embaixo. Minha última fantasia consistiu em erguer minha voz e arruinar a plateia com a força do meu desejo: eu quero aquilo ali. Aquilo ali é meu.</p>
<p>Há uma parte de mim que me perdoa: em algum lugar o desejo precisa começar. Pode ser no rugido da leoa, tão mais belo do que a secura angustiada da minha boca. Fantasio, portanto, a fêmea voraz. Imagino, então, a fera em mim. Insisto, assim, no chocalho sedutor da cascavel. Lembra-se dela? Há muito tempo nasceu em nós e nos despertou do sono de serpente que nos paralisava. Devo a ela meu néctar. Pois hoje umedeço meus lábios na santa fonte do prazer infinito &#8211; a água salgada do mar, o rosto de Iemanjá. O ventre da Virgem. O voo da Morte.</p>
<p>A dúvida, minha amazona, é a seguinte: conto ou não conto à Maria o meu desejo ardente de ser a Rainha de Copas? A dúvida é sempre e sempre será essa. Pois meus olhos cintilam a maldade da primeira pecadora. E lacrimejam o desejo daquela que sonhou demais.</p>
<p>Quero o mundo, Amazona. E quero Maria em mim.</p>
<p>Ternuras, vento e lábios umedecidos,</p>
<p>um beijo,</p>
<p>Jaia</p>
<p>&nbsp;</p>
<pre style="text-align: right;">Imagem: Lilith, de John Collier
</pre>
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		<title>Rouquidão</title>
		<link>http://www.bailedemascaras.blog.br/rouquidao/</link>
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		<pubDate>Sat, 24 Mar 2012 15:38:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[meninas]]></category>
		<category><![CDATA[meninos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa Poética]]></category>
		<category><![CDATA[romance]]></category>

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		<description><![CDATA[Fez-se um silêncio que José considerou fundamental. Ainda que ele apreciasse a fala solta e o riso balançante. Especialmente nela. E ela era uma beleza sem igual, nascida nos berços finos das Senhoras do Mundo: ela ocupava com tanta facilidade os espaços na vida, que era certo que jamais havia quase perecido de sede. Ao [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><a href="http://criszingaro.blogspot.com.br/2010/03/o-impressionismo-de-claude-monet.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-2116" title="monet2" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/monet2.jpg" alt="monet2 Rouquidão" width="450" height="328" /></a></p>
<p style="text-align: justify;">Fez-se um silêncio que José considerou fundamental. Ainda que ele apreciasse a fala solta e o riso balançante. Especialmente nela. E ela era uma beleza sem igual, nascida nos berços finos das Senhoras do Mundo: ela ocupava com tanta facilidade os espaços na vida, que era certo que jamais havia quase perecido de sede. Ao contrário dele. José era pura sede e cansaço, o sol lhe queimava a tez numa insistência que fazia parecer amor ou guerra: ele nunca sabia. Ele quase nunca sabia. Só acreditava em Deus e um pouco no desejo. Deus era o infinito além-mundo que sustentava todas as suas forças. O desejo era o que tremia em seus olhos quando diante dela. Feito vara verde, a perna tropeçava de abalo sísmico. Então José sabia que o desejo fazia coçar as pontas dos dedos, o macio da língua, a virilha, os pés &#8211; fazia coçar o dentro de si. Enquanto ela falava e falava e falava. Sorria e sorria e sorria. &#8220;Senhora minha&#8230;&#8221; Mas ela não sabia pertencer. Sabia aconchegar-se ao lado, pedir uns mimos e oferecer uma dose de sua letra bonita num bilhete de amor. José soube, então: ela sabia. E correspondia. E desde esse dia o mundo se tornou mundo e o céu se fez vivo sob os pés calosos de José-trabalhador. Enquanto a bailarina rodopiava beleza e cores. Ela, inventando o silêncio no mundo berrante de José. Ele, gritando as ânsias sem nome que invadiram as palavras dela. O desejo coçava a garganta também. Por isso a rouquidão.</p>
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		<title>Para Francisco</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 21:46:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[infância]]></category>
		<category><![CDATA[saudade]]></category>
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		<description><![CDATA[A saudade insiste - meiga e inflamada - &#8220;não se pode adiar o amor&#8221; e o amor repousa nas rugas dele suave em seu sono de morte ou seu sonho de criança. Ele era o Deus, o Pai, o Avô Era a Palavra que ensina às gargalhadas com uma pontada de tristeza da dor passada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/obras-de-candido-portinari-5.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-2104" title="obras-de-candido-portinari-5" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/obras-de-candido-portinari-5.jpg" alt="obras de candido portinari 5 Para Francisco" width="921" height="800" /></a><br />
A saudade insiste<br />
- meiga e inflamada -<br />
&#8220;não se pode adiar o amor&#8221;<br />
e o amor repousa nas rugas dele<br />
suave em seu sono de morte<br />
ou seu sonho de criança.<br />
Ele era o Deus, o Pai, o Avô<br />
Era a Palavra que ensina às gargalhadas<br />
com uma pontada de tristeza da dor passada<br />
Ensinou que não se bate em criança<br />
nem na mãe<br />
E que os espíritos brincam de roda<br />
dançando a dança de Deus.<br />
Que a primeira gota é derradeira<br />
e que o mel que escorre nas palavras livres<br />
é mais fino que os ensinamentos do doutor.<br />
Fino como a história falada<br />
nossas fábulas<br />
fantasias<br />
Fino como o que não precisa ser verdade completa<br />
- comprovada pela letra do homem -<br />
para fazer sentido.<br />
Ele não sabia escrever<br />
e também era canhoto.<br />
Hoje repousa à esquerda de Deus<br />
- que é onde fica o coração.</p>
<pre style="text-align: right;">
</pre>
<pre style="text-align: right;">Imagem: Pipas (Cândido Portinari)
</pre>
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		<title>História Oral</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Mar 2012 00:51:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>carlajaia</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[cigana]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[história oral]]></category>
		<category><![CDATA[versos]]></category>

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		<description><![CDATA[Tenho agora uma missão dada pelos deuses ou pelas fadas pelos espíritos ou pelos santos pelas sereias ou pelas estrelas: ouvirei histórias. Dos velhos e das meninas das deusas guerreiras de ontem da palma da mão de Maria dos ventos ciganos de Jorge dos seus amores ruídos das muitas bandeiras dela das armas e precipícios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://alcateiasite.blogspot.com/2012/02/roda-cigana-segunda-feira.html" target="_blank"><img class="aligncenter size-full wp-image-2101" title="cigana carmem" src="http://www.bailedemascaras.blog.br/wp-content/uploads/2012/03/cigana-carmem.jpg" alt="cigana carmem História Oral" width="320" height="400" /></a></p>
<p>Tenho agora uma missão<br />
dada pelos deuses ou pelas fadas<br />
pelos espíritos ou pelos santos<br />
pelas sereias ou pelas estrelas:<br />
ouvirei histórias.<br />
Dos velhos e das meninas<br />
das deusas guerreiras de ontem<br />
da palma da mão de Maria<br />
dos ventos ciganos de Jorge<br />
dos seus amores ruídos<br />
das muitas bandeiras dela<br />
das armas e precipícios<br />
das almas e sacrifícios<br />
dos pés descalços<br />
dos sem-teto<br />
das virgens<br />
da putas princesas amadas<br />
das jovens desengonçadas<br />
da brisa lunar cintilante<br />
que lança a vida em rompantes<br />
- o ar, Cigana, o ar fino:<br />
de nossas histórias nômades<br />
que dançam, flutuam, ecoam<br />
quando abro a janela<br />
e ouço<br />
o canto daquilo que vive.</p>
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