sexta-feira
Fazia silêncio ali na porta, mas ela já adivinhava guerras. Adivinhava porque sabia que as nuvens contavam histórias. Adivinhava porque reconhecia a imperfeição nas linhas do piso da sala e porque ainda sabia gritar. Não que expressasse. Não que dissesse. Mas a gente entendia que ela conhecia muito bem as coisas tortas. E apreciava. Por isso desenhava torto e bonito, feito uma artista nascente. Feito uma criança. A mãe já conhecia as guerras. Mas havia desaprendido os segredos das nuvens. A pequena bagunçava o pensamento e quebrava em mil pedacinhos. E inventou a história da guerra. História que aconteceu. Lá fora as bombas e as balas, os tiros no corpo e os cães perseguindo gente. Os cães da polícia. Os cães inocentes, instrumentos da polícia. A polícia inocente, instrumento do governo. O governo inocente, instrumento de nós. Em nós não havia inocência. Em nós, os tantos, a multidão. Havia luta. Havia governo que feria e polícia que batia. Havia guerra. A menina viu a guerra pela janela. E adoeceu de inocência e de sabedoria. Adoeceu de impureza e covardia. Adoeceu do outro que doía. Adoeceu pequena em suas nuvens e seus conhecimentos. Pouco sabia sobre os governos. Não mais inocentes: vis. Pouco sabia sobre a polícia. Não mais inocente: vil. Sabia muito sobre os cães. Ainda inocentes. Os cães. Sabia um pouco sobre nós, que em nossa falta de inocência perseguíamos sonhos e movimentávamos mundos. Que em nossa falta de inocência crescíamos e nunca mais conseguíamos parar. Que conhecíamos pedaços da dor e da crueldade e tínhamos medo do fora de casa. E tínhamos medo de quem lutava e tínhamos medo de nós. As bombas da polícia, as nuvens da menina. Chocavam-se numa chuva infinita e feriam a pele dos transeuntes. Dos manifestantes. Eu vi a pele ferida, a carne mais viva de todas. Ouvi a história das cores e das sereias: a história que o pai contava para me manter criança. Depois pertenci ao mundo um pouquinho. Voltei. A casa segura: o vento lá fora. Só a menina sabia: é de nuvens e de chumbo que o mundo é feito. E do choque entre eles: a chuva. Chuva de desejo e loucura. Chuva dos abandonados, desapropriados, das putas e dos bêbados, dos invisíveis e das crianças.
Chuva de nós todos. E de nossa potente desinocência infante.
Imagem:Maio de 68






Lindo demais, doce JAIA!
Carla,
Você é realmente incrível! Eu também sei, Carla que “é de nuvens e de chumbo que o mundo é feito.” E no meio do caos a gente tenta resgatar os nossos sonhos inocentes; ou quem sabe plantamos os sonhos no caos apenas para sobrevivermos ao mundo.
Bravo!
Beijos, querida!
queridíssima,
saudade.
de vc.
de suas letras.
se trocar.
vamos nos encontrar terça, à tarde? que tal? um café, quem sabe?
15H?
beijocas