quinta-feira
Abriu os olhos assustado como se fosse o dia seguinte. E quando viu o sexo pela primeira vez – ou ouviu; ou cheirou; ou apalpou: era porque amanhecia. Tinha um certo dom assustado de ser menino e menina; e sempre fazia os convites errados. Amava a menina que passava, a da janela vizinha: amava porque olhar era seu único ponto de escape e porque ela passava coloridamente visível com tanta reluzência. Então já era o dia seguinte. E o dia seguinte era o mesmo. E, porque todos os dias se repetiam, ele tratou de inventar novas palavras: a cada dia, decorava as palavras criadas no dia anterior e inventava outras. E, nos dias que vinham, podia fazer frases, parágrafos e cartas. Tudo crescia tão novo a cada dia que passava desde o primeiro sexo que – quase que sem notar – nasceu um livro. Um livro e mais outro. E outro e outros. Primeiro a história da menina que passava. Depois as cores que a desenhavam. Aos poucos a janela e seu contorno. A casa, os arredores. Fabulescamente ele escreveu o mundo: mas ninguém leu. Morreu antes que pudesse ensinar a língua que havia inventado.
Imagem: Sandra R.






Triste, mas o q é triste para ser belo preenche de alegria incontida.
amo voltar aqui de tempos em tempos e ver vc dançar!
o sentimento que tive ao ler esse texto se parece com o que sinto quando leio muitas coisas do caio fernando abreu.
beijo, carla
O mais admirável é que você não para de escrever! Talvez seja a única escritora de-fato que eu tenha o privilégio de conhecer
… já que o “de-fato” significa não apenas qualidade, mas quantidade: em outros termos, dedicação e disposição hehehehehe
abraço!
triste, a fabulinha.
mas lindíssima.
:*
Concordo