quarta-feira
Uma foice.
Uma força.
Um grito.
A cabeça do marido rolando cafezal abaixo.
A emboscada final – o fim. E o carro da Chefatura de Polícia levando-a para longe, bem longe, lá na casa das loucas-criminosas-desvalidas. “Minha liberdade, enfim” – dizia ela. Na prisão. Antes, o roxo nas pernas, nos braços, no ventre, o sangramento incessante na boca que perdia dentes, paladar e beijos. Sem carícias. Só o sexo forçando, ferindo – o sexo violação. As mãos que lhe espremiam os seios com ódio e desejo. E ela, rubra de dor e sem prazer, espremia-se mais – pra se esconder. E resignava-se tantas vezes: era preciso ser grata ao homem que a desejava: “que se o marido não tem em casa, procura fora”, dizia a mãe. Procura forçar lá fora o sexo de outras tantas, era isso? Oh, mãezinha – pensava e resignava outra vez. Da mãezinha morta não se pode discordar, jamais. Só se resolver pecar. Só se resolver pecar bem feio contra todos os santos e todos os deuses…
Não era?
Era.
Pecar bem feio e armar uma emboscada.
Afiar a foice de matar marido e nunca mais sentir a dor na pele arroxeada – nunca, nunca, nunca mais! “Perdoa, mãezinha, mas um desejo assim eu não quero, não”. E foi. Armar no cafezal o crime, a vingança, a loucura. Armar no cafezal sua prisão, emboscar-se numa última vontade: ontem mesmo, atrás das grades, dizia aliviada que estava livre. E, livre, sufocava-se em abusos outros. A nova casa suja, as grades na janela, a porta de ferro. O eletrochoque: açoite das loucas-putas-criminosas-desvalidas. Das que armam emboscadas no alto do cafezal. Das que tocam a foice, o sexo, o medo e desarrumam a casa limpa. Das que brincam com fogo e dançam as cores do inferno. Das que deixam cair talheres e estraçalham os pratos no fundo da pia. Das que correm nuas e vendem amor. Açoite das mulheres vis e dos homens fracos, e de todos os que se despedaçam de fúria ou doçura. Açoite dos que gritam. Ela. Que aos poucos se esqueceu de tudo o que não fosse a cabeça rolando, o corpo no alto – dividido o marido, feito ela própria aos pedaços. Só aquilo: rala recordação do fim. E havia também a lua. Lá fora, sem as grades. A lua às vezes chorava, ela pensava.
E, em seus delírios, completava: “Chora porque também é fêmea. E sabe.”
Imagem: do filme "Ópio, diário de uma louca"






Somos todas cúmplices umas das outras.
Todas cúmplices, Pata.