out 4th
domingo

quebra cabeças Despedaços

Era um fio delicado e invisível e eram coleções infinitas, impossíveis. A casa dele era uma casa móvel, carregada de um canto a outro, e por vezes bem alto no céu, tudo ao sabor de seus ventos – frágeis ventos infantes que o desenhavam menino. Os pés eram grandes, os olhos dançantes, o mundo para ele era a casa e os ruídos insones da televisão ligada. Raramente o vimos nas ruas depois das seis da tarde. Às vezes ele saía e seus passos eram um desarticulado perambular. Saía com a mãe, seu desassossego pleno. Jamais se desmanchava de amores: escondia-se. Lá dentro o coração descompassava uma música suave arranhada pelos sons do jornal da noite e ele conhecia todas as notícias que o mundo lhe trazia. Desconfiava delas e então buscava recortá-las e costurá-las. Era um tecelão de verdades despedaçadas: fazia para si um mundo que destronava todos os senhores e todas as certezas e se reinventava nos novos remendos. Não era um mundo fácil, sequer legível. Sua língua era de outros universos e sua solidão falava um pouco da nossa, embora jamais ousássemos admitir. Éramos tolos em nossas certezas e temíamos o abismo fundo de seus detroços. Tudo no mundo é despedaçado, mas nós queríamos nos acreditar inteiros. Ele não.

Foto: Alexandra

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