sábado
Ela, tão ali: quase como se fosse tantas outras. Como se fosse ninguém, a invisível. Ela: e não me refiro exatamente a ela. Ela quem quer que seja. Era e é. Muitas, muitas, muitas. Mulher naquelas curvas derrapantes. E puta. Diziam puta sem pudor. Não era carinho. Tampouco era carinho dizer gostosa. Mas diziam. Enquanto ela falava outras coisas. Mas não falava de como a chuva fina trazia lembranças bonitas daquela infância querida que os anos não trazem mais. Seus oito anos e sete e seis e cinco. Aquele tempo que ela nem sabia agora se era realmente tão bom, mas que parecia uma delícia quando nascia nas melodias que a lembrança inventa. Memoriosa naqueles dias, memoriosa secreta. Não que fosse saudosista: só a chuva era capaz de provocar um suave lacrimejar em sua memória. No mais, vivia. Tinha paixão pelos hojes de cada dia. Gostava de sexo e de morango. Apreciava a praia e tinha vontade de aprender a surfar. De vez em quando assistia à televisão. E tinha algumas pressas intrigantes: queria que chegasse logo o primeiro dia de maio. Não era o dia do trabalho para ela, era só o começo do mês de nome mais bonito. Um nome tão macio: ela não sabia explicar, mas tinha dessas sensibilidades. Nem sempre notava. E ninguém mais sabia. Ninguém mais queria saber. Repito que ela era invisível. Era gostosa de vestido curto e eles deliravam. Mas eles não sabiam nem queriam conhecer aqueles miúdos bonitos detalhes que se desenhavam nela – não nos seios bem feitos, mas nas linhas da palma de sua mão. Linhas que uma cigana conheceu, leu e contou. Contou que haveria amor, muito amor. Ela acreditou faceira, sem saber…
***
Ninguém a percebia, embora todo mundo a olhasse corpo inteiro e cada curva. Todo mundo: desejando, invejando, cobiçando, maltratando, tocando, vibrando. Todo mundo olhando em excesso. Excessos de observar, destrinchar a vida em pedaços sórdidos e em prazeres breves. Ninguém sabia que aquela tatuagem de borboleta era porque ela gostava de cabelos ao vento. Ou porque voar é sempre um sonho. Ninguém sabia dos miúdos prazeres sem tempo; não breves, porque faziam eternidades em fragmentos. Prazeres que constroem gente, experiência-vida, mulher. Prazeres retalhos que produzem amor. Ela, em tudo o que seria – caso fosse. Ela, que era e é: mesmo em segredo. Ela sou eu. Descobri isso porque hoje mesmo doeu em mim. Aflita borboleta que voava na chuva fina. Tão memória quanto eu. Tão outra. Tão ela. Tão minha.
***
Não conto o que aconteceu. Não quero que a história morra. Ela em cenas e sonhos e pequenezas parece mais nossa do que em uma ilusória história completa: é que, na inteireza de uma vida bem narrada e amarrada, correríamos o risco de não reconhecer a outra em nós. Ela, a puta, a bela, aquela: e esses nossos rasgos de inveja e desprezo, essas nossas crenças no mérito de ser. Como se fôssemos.
Deixemos assim, no vir-a-ser. Inacabada, para que saibamos que em qualquer de suas pontas restantes podemos entrar: sê-la e doê-la. Vê-la.
Imagem: Imotion






Ela e nós. Ela tão Hipólita, tão Polímnia, tão todas elas, tão nenhuma delas.
Gostei muito da parte em que percebe que todas a notam, mas ninguém a sente, de fato.
é triste de doer e porque dói, é. É aqui, também.
As coisas pequeninas, Polímnia, realmente têm me dito muito mais do que as grandiloqüentes e majistrais. às vezes, nossas miúdezas passam como ela…
um grande beijo,
Lily (e ainda) Hipólita
*todos a notam
** magitrais
carla,
vc dança eu achei, bem junt da Clarice, e é bonito o seu moldar das palavras.
Acho que ela é todas nós.
São tantas as histórias assim, tão iguais, tão diversas – banais, trágicas, de final feliz ou quase sempre não. Mas bem contadas, nem sempre.
Beijo pra você.
Levo estas palavras: “Deixemos assim, no vir-a-ser. Inacabada, para que saibamos que em qualquer de suas pontas restantes podemos entrar: sê-la e doê-la. Vê-la.”