jan 27th
quarta-feira

solsepondo2 do que nos envolve

É simples e lindo, querida. O som da sua dança. Torta, torta, completamente torta. Espero que não se sinta ofendida com o meu rasgado e sincero elogio: você parece estar sempre cambaleando. Sempre, sempre, completamente sempre. É com um desespero úmido que você se desfaz em sensualidade e é com o mesmo desespero que você se inteira simples. Bêbada e lúcida. Sábia. Por isso eu sei que entenderá as palavras de hoje. Essas que falam da nossa dança, falam de outro modo. Refiro-me aos mistérios das línguas – não essas com as quais saboreamo-nos, mas as línguas perdidas da história, essas que se destecem numa compreensão impossível e se armam vivas no olhar ou no gesto. Dizem meus olhos como dizem os seus, assim como dizem tristes os olhos silenciosos de quem espera um trem, as pupilas atentas da menininha perguntadora ou o suave-vibrante olhar do pôr-do-sol. Eu, que tenho medo de me perder da falsa segurança das palavras desenhadas em minha língua, não posso deixar de amar o perigo do grito, do silêncio, da voz brilhante das águas.

Ouço também a voz do calor, dos outonos que não conhecemos, da seca e da neve. O murmúrio do estrangeiro e o sono do velho na grama. São as escolhas, meu bem, sempre as escolhas. Mesmo o que é chamado involuntário é recheado de escolhas. E meu coração bate porque assim deseja, assim como se empenham todas as minhas veias, todas as minhas vísceras, todos os meus pelos e arrepios. Tudo em mim deseja, ambiciona, tudo em mim escolhe e se empenha em viver. E esse longo mistério, repetido há infinidades, é um monstro que me convida à vida. Por amor a quem morre e por amor a quem chora e por um pedido de perdão a tudo o que já matei. E nós, que matamos todos os dias, devemos vez ou outra nos calar vivos em poesia. Reinventar nossos desenhos, nossos motivos, nossas escolhas. Ah, sim, sei que estou ligeiramente enfadonha. Era pra falar do vermelho, dos suores e dos bailes. Mas hoje uma estranha delicadeza toma conta de meu coração e me convida a falar do amor. E da saudade. Da mais doce e necessária compreensão.É que me nasce agora a palavra família.  Família é palavra que, como todas as outras, pode se desmontar, ramificar, transmutar. Conservada que é, pode se desconservar linda nos novos mundos que nos nascem. Dela não conheço todos os nomes, enlaces e costuras possíveis. Invento agora que é tudo aquilo que nos envolve em uma ternura que amamos. Família é você, o pai e o sossego da madrugada. É a irmã, o lençol fininho e o nascer do sol. Vizinhos, amantes, aquela mão que nos toma. É a lembrança, perfumada de estranhos instantes traçados com delicadeza. É o silêncio, o beijo, a lua. A minha casa, a nossa, a sua. As miúdas gentilezas, as grandes, a mãe. É também a estrada, aquela de nossos desenhos tortos.

Assim, querida, termino séria e muda – assim você não esperava, mas sei que sempre acolhe, envolve e eu gosto.

Rebeca

3 pessoas dançando

  • dade amorim disse:

    Um texto que fala de universalidade e de uma perspectiva toda subjetiva. Um sentimento que engloba o mundo e seus cenários.

    Beijo, Carla.

  • delicado, delicado sim :)

    “meu coração bate porque assim deseja”, achei isso tão grande…

    ah, e eu também acho tudo isso sobre família – acho que família é esse eterno tecer, se enovelar, são junturas que a alma faz, que a alma reconhece.

    e vc tem razão sobre o que comentou sobre a minha escrita, acho que despedaço, desfabrico, desconstruo, é meu modo. o leitor, pode então, fazer seu próprio mosaico interno-literário-poético dos meus fragmentos :)

    beijo, querida!

  • ephemerus disse:

    Às vezes penso que tudo isso aqui é você pra você mesma, será? Vai ver é loucura minha, talvez a falta dos remédios que me cortaram, como tantas outras coisas que me cortam… Quer um comentário sobre o texto? Dukralho!!! Com todo o respeito.

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