terça-feira
Começa pela mãe. Ou pela boca. Começa em qualquer lugar, desde que ali: o meio do descaminho. Você me começou quando contou mistérios e, desde então, não durmo. Não durmo e, na insônia, faço silêncio – de que me servem as palavras?
Sabe o seu nome? Queria que não fosse “mãe”. Queria contar aos seus filhos que você se despedaça em mil – melhor que a coisa inteira. Queria que você contasse o mesmo à minha mãe, a verdadeira. E você me começou pela sua boca, assim como em outros tempos alguém me começou pelo ventre. Você disse: “as mulheres” e eu entendi que éramos nós. Senti suavemente que éramos nós. Que a outra é toda, toda, toda minha. Havia um pedaço de luz: eu comi. A outra me segredou que a vida é longa. A outra era você.
E que a vida se espalha. Matemos o passado, o presente, o futuro e todos os lineares. O que nos resta? Os espalhares, você diz. Os espalhares que não se importam com o ontem. Ontem é hoje e o amanhã se desfaz a cada “ai”. Ai! – e já chegou. Ai! – doeu como se. Ai! – a gente nasce.
A gente nasce. Eu nasci ontem da gota de sua saliva. Você dizia: “as mulheres” e eu me infinitava para todos os lados. Aprendi que só o incaptável. Só ele. E tomei coragem para não terminar as frases. Deixei que se calassem. Ai! – elas se calam.
Ai! – quando pela primeira vez meu nome foi nome de gente. Ai! – quando o marido que me matava deixou de ser o dono da honra. Ai! – quando tudo isso acontecer de verdade. Ai! – amanhã. Você faz a certeza de que ainda não acabou. Andará para sempre. Você não acaba. Como é que se diz quando se tenta explicar que o tempo é feito de arredores? Como é que se diz quando se busca entender que o tempo é?
Diz-se assim: a gente nasce pela mãe. Ou pela boca. Seja qual for a mãe, ou a boca.
Imagem: Frida Kahlo - Mi nana y yo






ave maria!
que maravilha de texto, Jaia que escorre, que deságua, que enxurra de vida: essas palavras!
essa coisa de dizer o indizível como quem faz jogo da velha, tarefa escorpiana, moça perspicaz de alma longa!
te adoro!
Tá muito bom isso aí ein. Enfo!
As pinturas de Frida me causam sempre um espanto, mesmo já as tendo visto mil vezes. Um espanto e desconforto, uma quase dor necessária.
Assim como o resto da mãe no meu umbigo.