dez 14th
terça-feira

frida Deusa

Começa pela mãe. Ou pela boca. Começa em qualquer lugar, desde que ali: o meio do descaminho. Você me começou quando contou mistérios e, desde então, não durmo. Não durmo e, na insônia, faço silêncio – de que me servem as palavras?

Sabe o seu nome? Queria que não fosse “mãe”. Queria contar aos seus filhos que você se despedaça em mil – melhor que a coisa inteira. Queria que você contasse o mesmo à minha mãe, a verdadeira. E você me começou pela sua boca, assim como em outros tempos alguém me começou pelo ventre. Você disse: “as mulheres” e eu entendi que éramos nós. Senti suavemente que éramos nós. Que a outra é toda, toda, toda minha. Havia um pedaço de luz: eu comi. A outra me segredou que a vida é longa. A outra era você.

E que a vida se espalha. Matemos o passado, o presente, o futuro e todos os lineares. O que nos resta? Os espalhares, você diz. Os espalhares que não se importam com o ontem. Ontem é hoje e o amanhã se desfaz a cada “ai”. Ai! – e já chegou. Ai! – doeu como se. Ai! – a gente nasce.

A gente nasce. Eu nasci ontem da gota de sua saliva. Você dizia: “as mulheres” e eu me infinitava para todos os lados. Aprendi que só o incaptável. Só ele. E tomei coragem para não terminar as frases. Deixei que se calassem. Ai! – elas se calam.

Ai! – quando pela primeira vez meu nome foi nome de gente. Ai! – quando o marido que me matava deixou de ser o dono da honra. Ai! – quando tudo isso acontecer de verdade. Ai! – amanhã. Você faz a certeza de que ainda não acabou. Andará para sempre. Você não acaba. Como é que se diz quando se tenta explicar que o tempo é feito de arredores? Como é que se diz quando se busca entender que o tempo é?

Diz-se assim: a gente nasce pela mãe. Ou pela boca. Seja qual for a mãe, ou a boca.

Imagem: Frida Kahlo - Mi nana y yo

3 pessoas dançando

Dance também