ago 6th
quinta-feira

magritte2 de quase em quase…

21/08/06

Ah, Menina,

Então é isso. É como quando Guilherme descia com as mãos mornas e gentis começando pelo meu pescoço e parando bem no momento em que chegava no meu ventre, bem quando eu já desassossegava e quase me faltava ar. Ele brincava assim, querida, e isso sempre se confunde com um pesadelo risonho que se repete por noites e noites: não o nunca, mas o quase. O quase. O quase. O quase é o que perturba seu silêncio, não é mesmo? E é pelo quase que sua boca fica seca, e você faz atrito com a aridez perigosa de nunca gritar de fato, nunca o ar se esvair pra sempre em loucura. É, sim, aquela gota que insiste em quase pingar mas não cai, não na ponta da sua língua. Sua língua que espera. Digo isso porque também é assim comigo, não é tão fácil fazer mágica quando existem coisas como Guilherme, saudade, e uma vontade perigosa de vida eterna. Digo porque morro de ternura agora: você está aguando. E a gente sempre soube que era pecado deixar criança aguando. Mas você já não é criança. Você está aguando como eu aguava e secava por Guilherme, como eu continuo a aguar e secar por tanta coisa, por novos sonhos, por lírios, gravata preta e morangos. Não é pecado que nos deixem aguando, já somos crescidas. Porque já não há quem deva nos nutrir. Não, querida acorrentada! Arranhe com força, sussurre com ternura ou quebre paredes. Faça o que puder, que a sede é tanta, a vontade é toda. E ela sempre volta pra pedir mais um pouco. Sempre no ventre. Sempre o quase. Quando é que chega o quando? Não me pergunte. De vez em quando a gente sabe. O quando dura instantes de morte. Vivos.

Eu? Ainda escolho a praia de manhã. Feiúra, força, doçura. E cócegas.

Espero que, de resto, esteja bem.

Com carinho,

Rebeca

Imagem: "Les jours gigantesques" (René Magritte)

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