segunda-feira
Alma irmã.
Eu sinto.
Como se você entendesse, como se eu entendesse, como se fôssemos. Então a história era muito bonita e não tinha corpo. Era mais fácil assim: eu não precisava pintar os entornos de meus olhos com o azul mais azul e tentar ficar a bonita mais bonita dançando madrugadas. Eu não precisava ajustar ao meu corpo – às minhas dobras – o tecido macio arrepio desejo. Eu não precisava me desfazer em mil – nua. Na rua. Como certa vez ela disse: “gente nua na rua a polícia pega e leva”. Eu não precisava correr esse risco. E, como se você entendesse, nem você: você era ainda mais bonita do que eu – e olha que eu era um sonho, um paraíso, um desatino – e fazia segredinhos aos pardais na calçada. Vestia os segredinhos de sua mãe e fazia bolinhos de chuva. Você sabia dançar – e dançava. Era uma leveza tão bela, tão doida, tão sua: você parecia ter raiva, mas só inventava amor. Só. E, mesmo quando berrava rua afora suas desilusões, fazia-se entender amante: de tudo. De tudo o que vive e respira. Amante da saudade da coisa doce que você fez certa vez. Amante do amor ao outro – deslizante em queda-fim. Você voa. Quase sem notar. É como se não houvesse segredo. Só a vontade bonita que sua mãe contou – segredinhos de dançarina. Só o desejo bonito de fazer bondade mais uma vez. E ter um pouco de medo disso. Você, que é derradeira doçura.
E não se cansa de perdoar do mundo.
Imagem de Lawrence Alma-Tadema






Carla,
Que carta! Que texto! Por um instante eu mergulhei nele e me encontrei; por um instante eu estava aí dançando… Assim, bem assim…
“Era uma leveza tão bela, tão doida, tão sua: você parecia ter raiva, mas só inventava amor. Só. E, mesmo quando berrava rua afora suas desilusões, fazia-se entender amante: de tudo. De tudo o que vive e respira. Amante da saudade da coisa doce que você fez certa vez. Amante do amor ao outro – deslizante em queda-fim. Você voa. Quase sem notar.”
E foi assim que me vi, na intensidade das coisas que disse e não senti; intensidade das coisas que senti, mas não soube dizer. Desse jeito!
Beijos