domingo
Sem poder falar, cantava. E, cantando, recheava o mundo com suas astúcias de Rapunzel à janela, seduzindo os carcereiros mais delicados – aqueles que apenas cumpriam ordens. Era o cárcere dos corpos em chamas: esses que desatinavam de amor e cometiam absurdos. Esses contadores de histórias sem pontas, tecelões de vazio. Essa menina cantora, filha de uma tal boa família de sobrenome importante. Menina distante, desencaminhada pelo vento. Agora, só entendia os escritos se os lesse ao contrário. E, como havia aprendido a fazer contas, multiplicava céu e terra e respondia: mar. Assim, todo feito de tempestade. E de seres antigos de guelras e rabos – os primeiros seres do mundo. Sereias. E peixinhos coloridos do infinito.
Cantava, a louca. Num soprano lindíssimo, desenhava nos ares a ópera dos primeiros viventes. Das larvas e dos avestruzes. Dos animais reluzentes na floresta densa. Dos animais torturados no abatedouro. De todos aqueles que, não podendo falar, faziam. Os sons melódicos do mundo. Das feras e dos zumbis. Das asas de borboleta. Dos uivos, dos pios macios: passarinho aflito antes do primeiro voo.
Relinchava óperas. Sucumbia ao tempo. Morria no maior silêncio do mundo. Só o carcereiro apaixonado ouviu: a minha amada não existe mais. A minha louca. E desatinou nos poros dela, num vaguear cantante, conhecendo para sempre as vozes daqueles que não podem falar.
Imagem: O Peixe (René Magritte)






Morrer no maio silêncio do mundo é encontrar, enfim, a tão desejada paz, que não enxergamos no meio das coisas.
Incrível seu jeito de dizer.
Beijos, querida!
Fiquei com a sensação consciente de já ter estado aqui nessa paisagem, ma confesso que falta-me ciência plena. De qualquer forma, sinto-me feliz por aqui estar e degustar essas palavras que me levaram de encontro a um horizonte curioso. O silêncio do mundo as vezes é as trevas de uns e o conforto tão necessário para outros. Talvez a interiorização dos atos não seja na prática o melhor caminho para os humanos.
bacio