out 28th
sexta-feira

torre Da torre

 

“Não, Catarina, essa vontade não vai passar…” – ecoava a voz da outra infinitamente ali. Era uma voz firme e decidida, certa de que conhecia aquela pequena verdade que Catarina insistia em não ver. Era uma voz macia, plena de amor: era uma voz amante, como se viesse da própria terra e abraçasse Catarina num infinito de serenidade, segredos e colos de mãe. Era uma voz deusa. Impiedosa. E Catarina era frágil como todos os desejos que inventava no seu cotidiano de retidão. Certa como quem não come a coisa que bate mal no estômago, vivia uma leveza inventada que produzia uma sublime imagem de si. Tão sublime que se desfazia no ar a cada olhar mais intenso. Insustentável e santa, caminhava a passos leves para não machucar ouvidos e dizia a coisa exata que escondia todos os ódios e receios, todos os desejos e preconceitos, todo aquele sangue que fervia venenoso e vil – aquele sangue que um dia diria: sou. E Catarina seria.

Mas nunca, nunca, nunca conseguia ser.

Lembrava-se da outra agora: os sapatos de couro e os brincos de ouro. Aquele cartão de crédito que pagou as três noites no hotel no Rio de Janeiro. O vinho doce molhando-lhe os lábios – tornando-a ainda mais vermelha, mais perigosa, mais amante: a outra. A outra e seus excessos – a dança e os pecados e umas poucas moedas lançadas ao pedinte na rua. Enquanto a outra sapateava na calçada, contando ainda aquelas histórias de amores mal-resolvidos, Catarina punha-se um pouco para trás e lançava um segundo olhar ao pedinte. Toda cheia de compaixão. E sentia culpa por seus sapatos que barulhavam o caminho – “silêncio! há que se respeitar os mortos”. E, para Catarina, o mundo inteiro era um enorme cemitério. A cada esquina, uma cruz e, nas escadarias, o sangue de mil Cristos cintilava forte mandando dizer: “assassina”. Catarina.

A outra: bela e ruiva. Fina. Feita de todo o sangue que faltava em Catarina. Feita da certeza de que gozava de plenos e irrevogáveis privilégios: toda feita de si. “Tão bonita…” – pensava Catarina. E culpava-se. Culpava-se pelo calor de seu corpo: culpava-se pela vida e pelo desejo: sabia – “sou dona do mundo se quiser, sinhá dos escravos e das terras, amante dos meus sapatos altos, filha do crédito vivo do cartão que herdei do pai”. Sabia.

Sabia-se dividida: a farsa. E falsamente passeava por livros que instigavam tolos protestos que ela sussurrava apenas para os ouvidos mais atentos: queria mudar o mundo. Desde menina. Mas jamais quis pagar o preço. “Esse é o erro, Catarina!” – dizia a outra e gargalhava feroz. Queria mudar o mundo, mas não abandonava o sossego de seu lar bem guardado. Queria destruir barreiras e prisões, mas amava cada pedaço daquela parede branca de seu quarto: aquela parede limpa, aquela parede virgem, aquela parede sacra. Queria rasgar-se, mas idolatrava-se. Idolatrando-se, não reconhecia nem mesmo uma pontinha do prazer corporal que lhe provocavam os óleos caríssimos que a irmã lhe trouxera de uma viagem ao exterior. Sem reconhecer prazeres, desconhecia também a fome: do outro. Saciada, insistia em não admitir: tinha todas as coisas que eram necessárias para manter a carne firme e o espírito lúcido. Todos os livros e todos os alimentos: Catarina passeava lá e cá com seus sapatos de couro e brincos de ouro. E dizia que não. De tanto dizer que não, calava o corpo. De tanto calar o corpo, mergulhava-se na tola hipocrisia de ser diferente: “sou um deles, mas quero mudar o mundo. Quero doar parte de mim e me despedaçar diante de multidões. Sou uma ideia sem corpo agora: sem classe social, raça ou história – sou vento!”

Catarina, ruiva e delicada. Silenciosa e bela. Plena da certeza de ser diferente. De todos aqueles que ao lado dela nasceram e junto dela bebericavam vinhos e cantarolavam poesias. De todos aqueles que calçavam sapatos de couro e se adornavam com peças de ouro. Ela: sóbria e nua. Mas – como não notava? – ainda era apegada à parede-mãe de seu quarto sagrado. Era ela, afinal, quem atirava ao pedinte umas poucas moedas – e temia encará-lo. Era ela quem sussurrava os tolos segredos de si e banhava-se fina como uma princesa: era ela quem se deliciava dos próprios adornos, as melodias em cadência suave que faziam-na sentir-se culturalmente superior. Era ela a outra – macia e mansa – e passaria a vida fingindo se importar. Sem saber que não. Que nunca.

Ela era o pedaço da cidade ao qual pertencia. E esse pedaço era o alto da torre. Nunca quis descer de fato.

 

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