set 13th
terça-feira

limpandometais Clarice

Cansada, deixou que as pernas bambeassem e caíssem suaves – bem ali. E ali mesmo sentiu a densidade daquele ar perigoso e salgado que a levaria embora para sempre ou por um tempo. Ela não sabia bem: desejava desaparecer, mas não sabia até quando. Desejava deixar de lado as tarefas costumeiras e aquele chão por limpar – aquele chão tão sujo e tão molhado, aquele chão tão imenso, infinito, aquele chão que não acabaria jamais e que a puxava rastejante assim, assim, assim, como se ela fosse incapaz de voar.

Lembrou-se vagamente das cantigas infantis. A menina negra e o chicote – o chicote que ensina a dançar. Era uma lembrança vaga e triste, de solidão e angústia: a História nunca era sua. A não ser aquela dos chicotes e das prisões. Historinhas. Remexia-se inteira agora: queria contar a todos que a maldade se escondia nas letras macias das cantigas de roda ou nas páginas finas dos livros de fadas cintilantes e princesas de cabelos dourados.

“A minha beleza morreu” – pensou, certa vez, muda e triste diante do espelho. “A minha história acabou” – murmurou aflita para as flores que desfaleciam secas no quintal. A lua fez um movimento suave de querer anoitecer para sempre e ela pensou em pedir para ser transformada em fera. Como os lobisomens. Mas só homem. Às mulheres está reservado um outro tipo de transformação lunar, desses que a gente não vê. De um tipo que dói mais, porque dói feito a densidade venenosa daquele ar que parecia faltar, mas que esmagava: “o mundo é deles, o mundo é deles, o mundo é deles…!” Arfava violenta como um nunca mais e dizia angustiosas verdades momentâneas, mas tudo o que os outros ouviam eram tristes gemidos.

“A minha irmã quase morreu nas mãos dele, o monstro! E eu saltei doida varrida daquela janela aberta, mas foi porque ele me bateu primeiro. Ele, ele, ele!” Discurso incoerente – anotou o doutor. Nem perguntou. Ela chegou agitada e desalinhada, perdeu uns muitos quilos em poucos dias – dizem que fez greve de fome – e quase morreu. Delirou o amor e o ciúme e a beleza e a angústia e resolveu cantar para todos a canção de sua morte: “Plantei uma cebola no meu quintal/nasceu uma negrinha de avental/’dança negrinha’, ‘eu não sei dançar’/pega o chicote que ela dança já”. Assim, repetindo para sempre uma cantiga de roda que rodopiava em enjôos de fazer cair. Como se quisesse dizer. E dizia. E cada vez que dizia -no som letal daquela melodia – , as muitas meninas de cabelos dourados rodeavam-na leves em seus vestidos claros e exibiam orgulhosas suas poses de donas do mundo. Sem saber que mais tarde seriam feitas troféus de outros donos, aqueles que dominavam as máquinas, os dinheiros, os engenhos e os corpos. Ela – ela sabia. Tanto sabia que afundou naquele grito e buscou ali sua força – descomunal – para expulsar da vida cada um que empunhasse o chicote. E cada vez que dizia – no som letal aquela melodia -, as muitas meninas pálidas dançavam e se esvaíam e então todos os chicotes estavam nas mãos de homens – e todos os homens do mundo a obrigavam a dançar e queriam se perder loucos em suas curvas. Ela. Ela sabia. Em seus delírios, contava a história do mundo: porque delírio é coisa séria. Delírio é coisa de quem sabe.

Ela: ela sabia!

“Quem tiver ouvidos, ouça” – anunciou sábia e firme. Porque era deusa agora, ainda que o doutor não soubesse, ainda que os homens empunhassem os chicotes e ainda que sinhazinhas dançassem as cantigas de sua dor. Era deusa agora e só suas irmãs sabiam: essas irmãs em delírio que deixavam marcas nas paredes do hospital das loucas.

Era deusa agora. Mesmo que deus – o dos outros – não soubesse. Ele nunca sabe…

 

1 pessoa dançando

  • Lunna disse:

    Eu tenho muitas coisas a dizer acerca desse seu escrito. Dessa metamorfose lenta, mas o silêncio que chegou aqui através de suas palavras está prevalecendo.
    Estou com cenários inteiros em minha mente e movimentos antigos de lendas e mitos que povoam minha mente.
    Vou-me, mas não totalmente… rs

    bacio

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