Tendo à loucura e – dessa tendência triste e mansa – faço um olhar doce-feroz, disfarço na palavra o grito, desteço na certeza os véus: faço nudez – mas só aqui dentro, meu bem, só aqui dentro: escondo-me daquilo que me olha: O caos o cais o vento. Cócegas na garganta vazia: a minha [...]
quarta-feira
Rompeu-se o feitiço em três o primeiro, carícia dos sonhos: feito para amaciar os aflitos; o segundo, desejo das almas, impulsionou os valentes os fortes os vivos! Quanto ao terceiro – segredo dos loucos – foi a libertação do mundo: o ventre da virgem que deu à luz o menino do universo a saliva [...]
domingo
para Paula Zilá, Maria Carolina, Moa… Cantavam ali, sob o asfalto as cinzas das feiticeiras e as vozes de todas as mulheres que me desciam árduas na garganta Bebi! Bebi o que rompia o asfalto: o grito – esse dos corpos mutilados delas minhas meninas minhas mulheres minhas amadas as cinzas finas das feiticeiras [...]
quarta-feira
Meu senhor e meu deus e nossa senhora também! a mãe o pai o filho e o Espírito de nosso século perdão perdão perdão! pelos meus pés que profanam as pedras de vossos altares por meus tropeços nos verbos nos versos e nas entranhas por fazer manha. por fazer erro. por [...]
terça-feira
bem assim só porque o pássaro insiste: ou cai ou voa. o pássaro e seus músculos o pássaro e meus músculos: fibras do coração. insisto no homem: o homem. desisto e o homem caminha tão longe. lembrei-me de que ele fumava ou bebia ou fazia um movimento suave e duro: bem em mim, [...]
sábado
Meus vinte e sete anos aflitos incertos nascidos da ruga mansa que delira em mim: sou jovem ainda mas já não posso brincar. Ouço a vida de meus vinte e sete carinhos na esquina de meus vinte e sete segredos no ouvido da mãe – qualquer mãe – travesseiro menina amiga amante professora [...]
sexta-feira
Lúcio, Eu sou um pouco mais sempre um pouco mais mais velha que esse sorriso – largo e torto – que lanço para você quando mostro meus serviços de santa maria morte medo rainha ruína resvalando tédio Mais sóbria que essa vontade lacrimejante e bicuda que finjo quando quero mimos doces cafunés [...]
quinta-feira
O amor é água mansa escorrendo entre as coxas Morno, parece até morto, quando para no tédio entre os tempos da saudade que arde: aguda funda quente feito os cabelos úmidos que se espalham – após o gozo – na caldeira de meu ventre oco. Imagem: Danae (Gustav Klimt)
sexta-feira
O amor faz a ronda de fim de tarde e encontra o menino perdido em sua paixão arruinada sem chão; encontra o velho calado enquanto sua antiga esposa dança as agonias finas de ser amante de outro. O amor faz silêncio: não cura. O menino se torna homem e ama incontrolavelmente incontestavelmente irremediavelmente um [...]
sábado
Fazia tempestade e os olhos dela sangravam vontades de morte e loucura Só ela morria de medo do parto da arte dos corpos Enfeitava a nudez com pudores devotos: “Santa Maria, eu peço paz eu peço silêncio peço dormência no ventre e finco os pés no chão: enraízo” E os pés se afundavam no escuro [...]














