O fios da vida roídos pelos dentes fracos daquele rato verde: Maria dilacerou o delírio, pôs um fim àquela farsa e deu à luz Jorge, miúdo Jorge do mundo – que seria santo, amante ou pescador. Ou tudo junto. Ajudante de pedreiro, mecânico, secretário, namorado, príncipe, doutor. Mas Maria era louca e todo mundo começou [...]
segunda-feira
Como se as pedras rezassem desde Outono – quando eu desfolhava quase-virgem -, terminei minha última carta. Aquela que se direcionava a ele – ou a ela, ou aos deuses. Então veio o delírio: e o delírio era uma flor aberta em pólen ou sangue e a minha fuligem era tudo o que eu tinha [...]
domingo
Ele me olhou. Aqueles olhos negros fundos e sempre um pouco úmidos. Havia sido tomado pela loucura e pela bebida. Pertencia aos médicos e a nós: pertencia às nossas paredes que enquadravam os anjos, os demônios e todos aqueles que cortam estradas. Ele me olhou. Disse assim: “Moça assim, que nem você, tem que tomar [...]
quarta-feira
O amor lhe doía no canto esquerdo da cabeça. Ou no meio da testa. Latejava. Como se fosse cansaço. Ele não entendia bem essa coisa de sentir aperto no peito ou na garganta. Pablo costumava dizer que era coisa de gente muito racional. Tocava-lhe a testa de leve e falava baixinho: “Você sente aqui, bem [...]
segunda-feira
Flor de Lis, Sem pé nem cabeça – voando pólen. Você. Gosto de seus diálogos secretos e de suas invenções de mim. Quando você me inventa, eu sou. E sou. E sou. Infinitamente sou. Um pouco do que você faz. Suas pétalas. Conto as histórias delas – minhas e suas. As partes de uma flor. [...]
quinta-feira
- É que eu não quero mais falar… – murmurou. Exigiam que ele falasse. Queriam que ele confessasse. E depois insistiam em dizer: “é para o seu bem, meu bem!”. * Temores. Tremores. Beco. Vento. Estrada. Ele era meu filho. Naquele instante: breve assim. Eu sabia que não suportaria ser mãe por muito mais tempo [...]
quinta-feira
Abriu os olhos assustado como se fosse o dia seguinte. E quando viu o sexo pela primeira vez – ou ouviu; ou cheirou; ou apalpou: era porque amanhecia. Tinha um certo dom assustado de ser menino e menina; e sempre fazia os convites errados. Amava a menina que passava, a da janela vizinha: amava porque olhar [...]
domingo
Era um fio delicado e invisível e eram coleções infinitas, impossíveis. A casa dele era uma casa móvel, carregada de um canto a outro, e por vezes bem alto no céu, tudo ao sabor de seus ventos – frágeis ventos infantes que o desenhavam menino. Os pés eram grandes, os olhos dançantes, o mundo para ele [...]
quarta-feira
Pedi aos céus que os cavalos não me despertassem de madrugada, mas eles vieram aos galopes desbravando chãos, mergulhando na infinidade do mato aí fora para trazer notícias suas, Ícaro. Era uma carta em letras estranhas e incompreensíveis e eu bem soube que anunciava a sua morte. Só porque você é homem. Eu tremi, tremi, [...]
segunda-feira
Devo dizer, menino, que não posso ouvir a sua história enquanto me apego à minha falsa honradez. Não posso ouvir seus desatinos, seus segredos de becos e de pés no chão, a primeira arma de fogo na sua mão, não posso ouvir esses destroços, menino, se a piedade é o que me toma e se [...]













