Querida, Tão escassos têm sido nossos encontros que acabo por me esquecer do ponto em que estávamos na última carta. Então, resignada, inicio apalpando palavras novas que brotam de mim em direção a você. Hoje elas me contam um segredo perigoso: dizem que todos os dias inventam a histérica para calar a mulher. Inventam enfermidade [...]
quarta-feira
uma carta de Rebeca de 13 de abril de 2008 Escrevo inflamada. Vista embaçada. Veias duras. Mel roendo os dentes. Dentes melando mel. Escrevo inflamada. Hoje mesmo a verdade me bateu à porta sutilmente: pediu-me que eu atentasse para o prejuízo. Porque é prejuízo viver assim sem juízo, aluada como manda meu coração. Aluada feito [...]
quarta-feira
É simples e lindo, querida. O som da sua dança. Torta, torta, completamente torta. Espero que não se sinta ofendida com o meu rasgado e sincero elogio: você parece estar sempre cambaleando. Sempre, sempre, completamente sempre. É com um desespero úmido que você se desfaz em sensualidade e é com o mesmo desespero que você [...]
segunda-feira
Dancei. Dancei. E dancei. E todos aqueles rodopios, Rebeca, eram para você. Louca, eu queria fazer-me o auge da simplicidade. Perigosamente nua. Aquela nudez sem pose. Meu Deus, como desejei uma nudez sem pose: a nudez da terra e dos trovões, nudez da liberdade, uma nudez feia. Feia, Rebeca. Dancei e, em meus rodopios, fui [...]
quinta-feira
Não é o começo, o fim, ou qualquer espaço no meio do caminho. É um balançar do tempo, nas ondas do mar, no desabar de folhagens ao vento. É um balanço do silêncio, Rebeca, um balanço profundo no fundo de seus ouvidos. É a minha voz, Rebeca, infinitamente rouca, e o meu sangue fino desandando [...]
terça-feira
Eu sei que nunca nos abandonaremos, Rebeca, hoje sei. Porque nos amaldiçoamos juntas em nosso nascimento gêmeo: somos carne de mesma raiz sangrenta, naquela manhã de chuva em novembro. Chovia? Chovia como chove o signo de escorpião e amanhecia porque tudo em mim sempre amanhece. Somos, Rebeca. Somos o que somos, nesses poros vivos de [...]
sexta-feira
Para Rebeca em 06/01/07 Mas, Rebeca, as feras não contam segredos. São silenciosas e, de mansinho, devoram cada detalhe de mim. Eu pergunto a você: quando foi que deixou de me proteger? Não é que eu sinta falta, mas morro de ciúmes de todos os outros destinos que seriam meus caso eu não houvesse escolhido [...]
terça-feira
Para Rebeca em 20/11/06 Rebeca, Escrevo a você, sim, de todas as formas possíveis e meus dedos tremem – eu tomaria qualquer coisa para dormir, mas quero ficar acordada até amanhecer. Sinto agora o dia certo pra revelar o grande segredo, alucinado segredo, agora que meu corpo se desfaz em mil, ah, meu corpo é [...]
quinta-feira
03/09/06 Rebeca, Sei também que não é justo o meu silêncio, apenas não consigo saber se é precipitada a minha fuga. Ouço-a como a uma música – só a melodia, sem letras, palavras ou dizeres. Eu, que me apego a palavras, escrevo a você pra não parecer uma louca que fala sozinha, cheia de vontade e [...]
quinta-feira
21/08/06 Ah, Menina, Então é isso. É como quando Guilherme descia com as mãos mornas e gentis começando pelo meu pescoço e parando bem no momento em que chegava no meu ventre, bem quando eu já desassossegava e quase me faltava ar. Ele brincava assim, querida, e isso sempre se confunde com um pesadelo risonho [...]














