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out 19th
quarta-feira
Às duas

Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]

set 15th
quinta-feira
A terceira se chamava Letícia

A terceira se chamava Letícia e seu nome significava alegria. Mas nem era. Não podem ser alegres aquelas que conversam com as flores. Escutava os segredos mais tristes do mundo – porque as flores nasciam sobre ou para a morte. Então a margarida contava sobre os corpos que se decompunham tristes esperando que viesse um [...]

set 13th
terça-feira
Clarice

Cansada, deixou que as pernas bambeassem e caíssem suaves – bem ali. E ali mesmo sentiu a densidade daquele ar perigoso e salgado que a levaria embora para sempre ou por um tempo. Ela não sabia bem: desejava desaparecer, mas não sabia até quando. Desejava deixar de lado as tarefas costumeiras e aquele chão por [...]

jul 5th
terça-feira
A uma flor vermelha

Urbaníssima! Como se a cidade inteira se desenhasse no corpo dela. O amante sabia. E lia. Aquele mapa macio de todos os vãos, ruelas, praças – estradas iluminadas que se contorciam em meio a prédios enormes. Tudo ali. Nela. Ela era a própria cidade e suas luzes. Fazia amor quando era de manhã e selvageria [...]

jun 26th
domingo
Daqueles que não podem falar

Sem poder falar, cantava. E, cantando, recheava o mundo com suas astúcias de Rapunzel à janela, seduzindo os carcereiros mais delicados – aqueles que apenas cumpriam ordens. Era o cárcere dos corpos em chamas: esses que desatinavam de amor e cometiam absurdos. Esses contadores de histórias sem pontas, tecelões de vazio. Essa menina cantora, filha [...]

mai 18th
quarta-feira
Emboscada

Uma foice. Uma força. Um grito. A cabeça do marido rolando cafezal abaixo. A emboscada final – o fim. E o carro da Chefatura de Polícia levando-a para longe, bem longe, lá na casa das loucas-criminosas-desvalidas. “Minha liberdade, enfim” – dizia ela. Na prisão. Antes, o roxo nas pernas, nos braços, no ventre, o sangramento [...]

mai 2nd
segunda-feira
Carta – Pétalas

Flor de Lis, Sem pé nem cabeça – voando pólen. Você. Gosto de seus diálogos secretos e de suas invenções de mim. Quando você me inventa, eu sou. E sou. E sou. Infinitamente sou. Um pouco do que você faz. Suas pétalas. Conto as histórias delas – minhas e suas. As partes de uma flor. [...]

abr 14th
quinta-feira
Carta – Voou

Lily. Então vem você e diz que achou que eu não havia gostado de sua mais recente doçura. Sua carta. E eu nem havia lido. Devo tê-la deixado empoeirada sozinha amarelada debaixo do sofá da sala. Devo ter esquecido. Porque ultimamente ando me esquecendo das coisas. Esqueci como se pronunciam ternuras e aventuras de fim [...]

jan 6th
quinta-feira
despedir-se de si

As faces da cidade. Era magra e as vestes quase sujas, quase perdidas, e me perguntou: você já conheceu um travesti? O outro fez alguma poesia-cordel  e seguiu carregando seu carrinho de materiais recicláveis. E a menina de pés descalços disse que eu havia engordado. Tudo isso logo ali. O vento e eu. Nada fiz [...]

dez 6th
segunda-feira
Já é amanhã

A casa está vazia, Maria. Pra sempre, pra sempre. Quem canta aí é Deus. O mesmo Deus que abençoou o seu santo casamento, há tantos anos. O primeiro homem: você nem sabia bem o que deveria fazer. Nem sei se foi bom. Você já havia desaprendido a desejar – coisa que a gente nasce sabendo. [...]