O quanto me movo, Maria? É sempre a sua voz que me chama: sua voz Maria mansa das revoluções das mulheres que empunham bandeiras. Maria sereia, rainha, Iemanjá. Dos Mares ou Iansã das Tempestades: senhora de nossas histórias antigas – quando ainda não tínhamos mania de, em nome dos nomes dos donos do poder, [...]
domingo
E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente [...]
segunda-feira
Mariazinha, a pequena, tinha os olhos – negros e fundos – vidrados no amanhecer. Era, então, hora de dormir. Mas ela não conseguia, não sabia, não podia. Quem a visse poderia até pensar – não sem certa razão – que havia anos que ela não tirava um cochilo. Punha o café para passar, faltava pão [...]
domingo
Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem [...]
sexta-feira
“Não, Catarina, essa vontade não vai passar…” – ecoava a voz da outra infinitamente ali. Era uma voz firme e decidida, certa de que conhecia aquela pequena verdade que Catarina insistia em não ver. Era uma voz macia, plena de amor: era uma voz amante, como se viesse da própria terra e abraçasse Catarina [...]
quarta-feira
Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]
quinta-feira
A terceira se chamava Letícia e seu nome significava alegria. Mas nem era. Não podem ser alegres aquelas que conversam com as flores. Escutava os segredos mais tristes do mundo – porque as flores nasciam sobre ou para a morte. Então a margarida contava sobre os corpos que se decompunham tristes esperando que viesse um [...]
terça-feira
Cansada, deixou que as pernas bambeassem e caíssem suaves – bem ali. E ali mesmo sentiu a densidade daquele ar perigoso e salgado que a levaria embora para sempre ou por um tempo. Ela não sabia bem: desejava desaparecer, mas não sabia até quando. Desejava deixar de lado as tarefas costumeiras e aquele chão por [...]
terça-feira
Urbaníssima! Como se a cidade inteira se desenhasse no corpo dela. O amante sabia. E lia. Aquele mapa macio de todos os vãos, ruelas, praças – estradas iluminadas que se contorciam em meio a prédios enormes. Tudo ali. Nela. Ela era a própria cidade e suas luzes. Fazia amor quando era de manhã e selvageria [...]
domingo
Sem poder falar, cantava. E, cantando, recheava o mundo com suas astúcias de Rapunzel à janela, seduzindo os carcereiros mais delicados – aqueles que apenas cumpriam ordens. Era o cárcere dos corpos em chamas: esses que desatinavam de amor e cometiam absurdos. Esses contadores de histórias sem pontas, tecelões de vazio. Essa menina cantora, filha [...]














