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fev 5th
domingo
Maria das tempestades

  O quanto me movo, Maria? É sempre a sua voz que me chama: sua voz Maria mansa das revoluções das mulheres que empunham bandeiras. Maria sereia, rainha, Iemanjá. Dos Mares ou Iansã das Tempestades: senhora de nossas histórias antigas – quando ainda não tínhamos mania de, em nome dos  nomes dos donos do poder, [...]

jan 22nd
domingo
O nome da deusa

  E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente [...]

jan 9th
segunda-feira
Mariazinha

Mariazinha, a pequena, tinha os olhos – negros e fundos – vidrados no amanhecer. Era, então, hora de dormir. Mas ela não conseguia, não sabia, não podia. Quem a visse poderia até pensar – não sem certa razão – que havia anos que ela não tirava um cochilo. Punha o café para passar, faltava pão [...]

dez 4th
domingo
A trama

Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem [...]

out 28th
sexta-feira
Da torre

  “Não, Catarina, essa vontade não vai passar…” – ecoava a voz da outra infinitamente ali. Era uma voz firme e decidida, certa de que conhecia aquela pequena verdade que Catarina insistia em não ver. Era uma voz macia, plena de amor: era uma voz amante, como se viesse da própria terra e abraçasse Catarina [...]

out 19th
quarta-feira
Às duas

Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]

set 15th
quinta-feira
A terceira se chamava Letícia

A terceira se chamava Letícia e seu nome significava alegria. Mas nem era. Não podem ser alegres aquelas que conversam com as flores. Escutava os segredos mais tristes do mundo – porque as flores nasciam sobre ou para a morte. Então a margarida contava sobre os corpos que se decompunham tristes esperando que viesse um [...]

set 13th
terça-feira
Clarice

Cansada, deixou que as pernas bambeassem e caíssem suaves – bem ali. E ali mesmo sentiu a densidade daquele ar perigoso e salgado que a levaria embora para sempre ou por um tempo. Ela não sabia bem: desejava desaparecer, mas não sabia até quando. Desejava deixar de lado as tarefas costumeiras e aquele chão por [...]

jul 5th
terça-feira
A uma flor vermelha

Urbaníssima! Como se a cidade inteira se desenhasse no corpo dela. O amante sabia. E lia. Aquele mapa macio de todos os vãos, ruelas, praças – estradas iluminadas que se contorciam em meio a prédios enormes. Tudo ali. Nela. Ela era a própria cidade e suas luzes. Fazia amor quando era de manhã e selvageria [...]

jun 26th
domingo
Daqueles que não podem falar

Sem poder falar, cantava. E, cantando, recheava o mundo com suas astúcias de Rapunzel à janela, seduzindo os carcereiros mais delicados – aqueles que apenas cumpriam ordens. Era o cárcere dos corpos em chamas: esses que desatinavam de amor e cometiam absurdos. Esses contadores de histórias sem pontas, tecelões de vazio. Essa menina cantora, filha [...]