E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente [...]
segunda-feira
Como se as pedras rezassem desde Outono – quando eu desfolhava quase-virgem -, terminei minha última carta. Aquela que se direcionava a ele – ou a ela, ou aos deuses. Então veio o delírio: e o delírio era uma flor aberta em pólen ou sangue e a minha fuligem era tudo o que eu tinha [...]
quarta-feira
Faz um ruído úmido lá onde a vida quebra seu talo de flor. Como os ossos remexidos das últimas meninas devoradas por lobos. Ou homens vorazes. A gente não sabe. A vó conta a história que pode e a história que pode nem sempre é a verdadeira. Há momentos em que é premente uma noite [...]
quarta-feira
Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]
domingo
Ele me olhou. Aqueles olhos negros fundos e sempre um pouco úmidos. Havia sido tomado pela loucura e pela bebida. Pertencia aos médicos e a nós: pertencia às nossas paredes que enquadravam os anjos, os demônios e todos aqueles que cortam estradas. Ele me olhou. Disse assim: “Moça assim, que nem você, tem que tomar [...]
sexta-feira
“Ela não vive mais aqui” – respondia. A quem batesse à porta, a quem gritasse alto lá fora, a quem chamasse. Por telefone, nada. “Ela não vive mais aqui” – respondia e depois chorava baixinho no quarto escuro. Era saudade. Ou vontade. Queria dizer ao mundo inteiro: “Ela morreu, morreu, morreu”. Mas não conseguia morrer. [...]
sexta-feira
Fazia silêncio ali na porta, mas ela já adivinhava guerras. Adivinhava porque sabia que as nuvens contavam histórias. Adivinhava porque reconhecia a imperfeição nas linhas do piso da sala e porque ainda sabia gritar. Não que expressasse. Não que dissesse. Mas a gente entendia que ela conhecia muito bem as coisas tortas. E apreciava. Por [...]
quarta-feira
Uma foice. Uma força. Um grito. A cabeça do marido rolando cafezal abaixo. A emboscada final – o fim. E o carro da Chefatura de Polícia levando-a para longe, bem longe, lá na casa das loucas-criminosas-desvalidas. “Minha liberdade, enfim” – dizia ela. Na prisão. Antes, o roxo nas pernas, nos braços, no ventre, o sangramento [...]
terça-feira
A história do seu corpo. A aflita história do seu corpo. A triste e magnífica história de um corpo aos pedaços. E você se transformando em estrelas. Mas não, não; a vida é dura e o corpo tem a firmeza exata que o torna capaz de ferir e ser ferido. A firmeza exata para receber [...]
quinta-feira
Seguem suas vidas inventando alegrias vãs – e quem sou eu para dizer que são vãs? Mas são. Por causa disso, sinto sua falta – sinto falta de roubar-lhe a tarde plena de calor e de respirar vazia no espaço tão amplo que você me oferece. A sua casa. Continuo na sua casa mesmo que [...]














