Fundo sem fundo sem fundo sem fundo sem fundo… Na repetição infinita ele localizava a ausência. Toda toda toda: ausência de tão-tudo que nem seria possível explicar. Pegou o telefone e digitou assim: o número da salvação. Queria ouvir aquela voz tão mãe-macia, voz que lhe evitaria a solidão. Fundo sem fundo sem fundo sem [...]
quinta-feira
Tocaram-se as mãos de leve. Era escuro e eles olhavam as estrelas. Eram ásperos como se não conhecessem ternura. Olhavam as estrelas porque nada mais tinham para fazer e, de leve, tocavam as mãos porque fazia frio e porque sentiam um na pele do outro aquela vontade escondida exacerbada que em breve se faria viva. Viveram. [...]
sábado
Nos descaminhos do sangue, fez-se a curva: e então era uma tela manchada em rubros espirais. Tudo devastava as calçadas e os paralelepípedos desfiladeiros que derrapavam até você. E foi naqueles corredores infinitos que busquei seus olhos. Que busquei capturar a verdade aguada de sua doença. Tentei, tentei, busquei a resposta com cada milímetro de [...]
sexta-feira
Era a luz intensa do seu silêncio ritmado. Sempre me perguntei se era tão necessário apertarmos as mãos. Mas eu tinha confiança naquilo. Naquele ritmo, naquela luz, naquele vazio. Acima de tudo, eu gostava do sossego. Queria me fazer compreender, explicar que mudança não significa, necessariamente, deslocamento contínuo. Há movimento no simples estremecer do arrepio da [...]
sábado
Era nada, senão as asas. As asas de seus corpos dançantes; era música. E musicalmente entoavam meus próprios gritos, me faziam louca, me contavam a história sem verbos, a história de um corpo livre. Não sei repeti-la aqui, é óbvio. Era história de ondas e curvas, vento e carne, era história de um nunca. Dançamo-nos [...]
quinta-feira
E de relance se lança Joga a lança Caça furtiva nos bosques Morre em pé É toda sereia verde e canta em sonhos De seduzir pescador e amar sozinha Ama sozinha num lance Quase feio Mexe em seu corpo dourado Nem se esconde Ama seu sexo vivo e não tem nome Diz que é [...]
segunda-feira
É como se agora eu fosse uma nova alma, e você também. Por isso não nos reconhecemos. Não somos o que somos; o que nos torna um hoje são as infinitas partículas invisíveis que nos atravessam. Eu sou as cócegas em mim.
domingo
13/01/07 As vozes, as festas, os sonhos que arranham melodias, a noite. Tudo se guarda em segredo, tudo deixa de existir de repente, e a gente amanhece devagar. Você, então, afasta-se sossegado – você também amanhece, afinal. Sabe ir à praia e compor melodias de verão, e deseja nas calçadas tropicais os sonhos mais comuns [...]
quarta-feira
…tamanha era a aflição, que se esqueceu de ver os passarinhos. Olhou, mas não viu. Atarefada que estava em colecionar possíveis desgraças, imprevisíveis quebras, quase-perdas, tomou o primeiro ônibus e seguiu até não sei onde. Perdeu um ponto, dois, perdeu a conta do infinito, contou moedas prum salgadinho no terminal, deu um giro cambaleante no [...]
terça-feira
26/09/06 Mais uma vez me dou conta do perigo que se faz no desejo, e então peço: cuida! Cuida de cada instante com teu sossego e tuas paredes lisas, cuida roçando de leve teus dedos nas pétalas e me fazendo um pouco mais de saudade, um pouco mais de segredo. Resgata, então, meus sonhos – [...]









