A sombra de Deus me pegou – num susto – acelerando meus passos, vertendo-se em meu encalço: fazia medo da morte da noite do furo. Medo dos cristais de fogo que nasciam de mim rompendo-me entranhas, ventre, precipício: era como quebrar ao contrário – nascer. era como parir às avessas – o dentro [...]
domingo
Inicio a trama suave de minha vida qualquer. Ponho diante de ti uma xícara de café e biscoitos de amanhecer, entrego-te um sorriso bom: “Lembra-te do dia, meu bem? O nosso dia?” Desembaraço macios meu cabelos úmidos e deixo nas pontas gotas de mel – para que molhes tua língua na doçura minha. Assim, bem [...]
sexta-feira
“Ela não vive mais aqui” – respondia. A quem batesse à porta, a quem gritasse alto lá fora, a quem chamasse. Por telefone, nada. “Ela não vive mais aqui” – respondia e depois chorava baixinho no quarto escuro. Era saudade. Ou vontade. Queria dizer ao mundo inteiro: “Ela morreu, morreu, morreu”. Mas não conseguia morrer. [...]
domingo
Sem poder falar, cantava. E, cantando, recheava o mundo com suas astúcias de Rapunzel à janela, seduzindo os carcereiros mais delicados – aqueles que apenas cumpriam ordens. Era o cárcere dos corpos em chamas: esses que desatinavam de amor e cometiam absurdos. Esses contadores de histórias sem pontas, tecelões de vazio. Essa menina cantora, filha [...]
terça-feira
Quando a pedra do mundo me afogar. O mar dos mortos. Sabe, Maria, quando a porta bate fria em vendaval? Sabe aquele pavor de não sei o que? E sabe quando você vê as rugas da avó e pensa em como tudo aquilo lhe dava medo? A casa dela. A casa dela no meio [...]
sexta-feira
A minha vida eu deixo aí, atrás da porta – que é pra espantar visita. Toda incompletude do mundo é vida espalhada em cantos por aí, atrás de todas as portas, fazendo surpresa aos visitantes desavisados. Toda incompletude do mundo é fantasma: faz o sono desacontecer. E então a gente pensa que amanhã. Que amanhã. [...]
terça-feira
Começa pela mãe. Ou pela boca. Começa em qualquer lugar, desde que ali: o meio do descaminho. Você me começou quando contou mistérios e, desde então, não durmo. Não durmo e, na insônia, faço silêncio – de que me servem as palavras? Sabe o seu nome? Queria que não fosse “mãe”. Queria contar aos seus [...]
sexta-feira
Então ela me disse que aquilo era o mesmo que tortura. Que não havia diferença. Olhei para ela como se nunca. E, de fato, nunca. Não me fora dada a chance de saber dessas coisas, não sei se porque Deus me fez uma bondade ou porque não confia em mim. “Deve pensar que sou frágil…” [...]
quinta-feira
Toda essa arte de re-espelhar mulheres: eu faço um caldo de nosotras, as outras – nosso lago é mais que espelho porque o que eu enxergo no fundo não sou eu, mas o tremor invertido de quem… Quem: ela. Envelheceu conversando com as plantas e treme impaciente diante daquilo que a faz rememorar: quer o [...]
segunda-feira
Tinha medo do maldito mas, ainda assim, aprendeu a maldizer. Foi assim, quase sem notar: percebeu que aquilo funcionava. Antes era muda – silenciosa naquela infinita palidez dos invisíveis. Assustada. Mas aquilo funcionava: contar miúdas falhas da outra, do outro, daquela. Mesa farta, novas histórias: maldito o outro que errava, tropeçava, desandava, traía; maldito o [...]














