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mai 18th
quarta-feira
Emboscada

Uma foice. Uma força. Um grito. A cabeça do marido rolando cafezal abaixo. A emboscada final – o fim. E o carro da Chefatura de Polícia levando-a para longe, bem longe, lá na casa das loucas-criminosas-desvalidas. “Minha liberdade, enfim” – dizia ela. Na prisão. Antes, o roxo nas pernas, nos braços, no ventre, o sangramento [...]

mai 2nd
segunda-feira
Carta – Pétalas

Flor de Lis, Sem pé nem cabeça – voando pólen. Você. Gosto de seus diálogos secretos e de suas invenções de mim. Quando você me inventa, eu sou. E sou. E sou. Infinitamente sou. Um pouco do que você faz. Suas pétalas. Conto as histórias delas – minhas e suas. As partes de uma flor. [...]

mar 22nd
terça-feira
Aquela pedra

  Quando a pedra do mundo me afogar. O mar dos mortos. Sabe, Maria, quando a porta bate fria em vendaval? Sabe aquele pavor de não sei o que? E sabe quando você vê as rugas da avó e pensa em como tudo aquilo lhe dava medo? A casa dela. A casa dela no meio [...]

mar 18th
sexta-feira
Atrás da porta

A minha vida eu deixo aí, atrás da porta – que é pra espantar visita. Toda incompletude do mundo é vida espalhada em cantos por aí, atrás de todas as portas, fazendo surpresa aos visitantes desavisados. Toda incompletude do mundo é fantasma: faz o sono desacontecer.  E então a gente pensa que amanhã. Que amanhã. [...]

fev 1st
terça-feira
A história do seu corpo

A história do seu corpo. A aflita história do seu corpo. A triste e magnífica história de um corpo aos pedaços. E você se transformando em estrelas. Mas não, não; a vida é dura e o corpo tem a firmeza exata que o torna capaz de ferir e ser ferido. A firmeza exata para receber [...]

jan 20th
quinta-feira
por causa da fome

Seguem suas vidas inventando alegrias vãs – e quem sou eu para dizer que são vãs? Mas são. Por causa disso, sinto sua falta – sinto falta de roubar-lhe a tarde plena de calor e de respirar vazia no espaço tão amplo que você me oferece. A sua casa. Continuo na sua casa mesmo que [...]

jan 8th
sábado
tão funda

Recicle o corpo da cidade e cante: ela renascerá límpida. Porque a cidade é o seu corpo e as vidas percorrem seus vãos – você é tão funda! E nesses vãos-labirintos adentram-se as feras – e eu digo “feras” mas deveria dizer “amigos”. Não posso. Tudo hoje mostra os dentes e faz meu medo cantar. [...]

jan 6th
quinta-feira
despedir-se de si

As faces da cidade. Era magra e as vestes quase sujas, quase perdidas, e me perguntou: você já conheceu um travesti? O outro fez alguma poesia-cordel  e seguiu carregando seu carrinho de materiais recicláveis. E a menina de pés descalços disse que eu havia engordado. Tudo isso logo ali. O vento e eu. Nada fiz [...]

nov 26th
sexta-feira
memórias

Então ela me disse que aquilo era o mesmo que tortura. Que não havia diferença. Olhei para ela como se nunca. E, de fato, nunca. Não me fora dada a chance de saber dessas coisas, não sei se porque Deus me fez uma bondade ou porque não confia em mim. “Deve pensar que sou frágil…” [...]

out 25th
segunda-feira
daquilo que se dobra

Dobrei o oceano e guardei na caixa. O grito! Só Deus entende que as coisas miúdas existem enquanto o mundo segue vasto. Por isso me emprestou a caixa dos segredos e pediu que eu guardasse mil pedacinhos de beleza – todos os que eu visse. Eu vi uma gota de sangue na calçada e o [...]