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jan 22nd
domingo
O nome da deusa

  E quando deus criou o verbo, que se fez intenso em minha carne, mal sabia ele, mal sabia a ele. Que hoje me submeto ao verbo como quem se entrega a um vício: a palavra me afunda a vida em seus múltiplos sentidos, em suas infinitas vontades. A palavra deseja dizer Homem e imediatamente [...]

jan 14th
sábado
Nascida

  Do mesmo modo que a tua estrela cintilava firme feito um farol eterno no infinito do mundo a minha me engolia em fogo – eu no inferno: desabrochando em cinzas férteis e novos grãos.   Nasci sob o signo dos sonhos: atarefada demais nas ilusões ensimesmada aguada.   Nasci na fé infinita das crianças, [...]

dez 12th
segunda-feira
Despertar

Certo como aquele roçar – fino e triste – das minhas folhas secas no seu telhado quebrado eu-árvore eu-vento eu-flor   Certo como um sonho, amor: esses de voar passarinhos e borboletear corações eu ainda acreditando no primeiro desabotoar apressado do meu vestido azul: era tudo água, meu bem. A água mais quente do mundo. [...]

dez 7th
quarta-feira
Talo da vida

Faz um ruído úmido lá onde a vida quebra seu talo de flor. Como os ossos remexidos das últimas meninas devoradas por lobos. Ou homens vorazes. A gente não sabe. A vó conta a história que pode e a história que pode nem sempre é a verdadeira. Há momentos em que é premente uma noite [...]

out 19th
quarta-feira
Às duas

Sempre às duas, expunha-se nua e lúcida para todos eles. Todos os fantasmas e todos os anjos e aquele pequeno demônio triste que bailava fúnebre desde meia-noite. Sempre assim: revisitando as curvas macias do corpo tantas vezes revistado pelas polícias dos corpos e das penugens, pelos donos do mundo que diziam o nome da beleza [...]

out 8th
sábado
tempo dos segredos

No fundo do meu sexo, cintilava o perigo. Aquele do grito que acordava os vizinhos. Jamais acreditei que a madrugada fosse feita para dormir. Na verdade, apreciava todos os olhos abertos na escuridão: queria que todos nos víssemos livres e soltos antes de amanhecer. O tempo escuro dos segredos. Contaríamos assim: “a verdade é que [...]

set 27th
terça-feira
o tempo de vocês

  Foi-se o tempo. Das fadas e dos silêncios de travesseiro e cobertor. Daquele aconchego. Foi-se o tempo de você e do Pai do Céu que nos amava tanto e tanto – para ele a gente rezava pedindo bênçãos de sol. Foi-se o tempo da barra da sua calça jeans e da calça de trabalho [...]

set 1st
quinta-feira
duas

Somos duas, Ana Cristina: você, o reverso de mim. E, no entanto, tão minha: minha Ana Cristina funda e aflita e feita de morte. Ou seria eu a morte que desde pequena passeia por todos os poros e bafeja um desejo infinito de definhar ou descansar? Descansar, Ana Cristina. Porque foi cansativo nascer: tão cansativo [...]

jul 3rd
domingo
Era um tempo

Assim como Antônio pedia a Deus. Assim como Cecília ajoelhava-se implorando que o senhor das letras a abençoasse mais uma vez. Assim como eu chorava. E lá fora a menina gritava pedindo migalhas de amor. De pão. E algumas gotas de sol. Assim como: e eu comia tudo. Todas as histórias que me contavam. Todas [...]

jun 25th
sábado
Ras(g)ante

Era preciso cantar mais baixo: ela já não o suportava tão ansioso e desejante, tão poeta, vibrante, intenso. Ela. Ensaiava voos rasantes. Partia. Desistia. E voltava. Voltava suave e tímida, como se quisesse partir novamente: amanhã. E antes que amanhã chegasse, ele cuidava carinhosamente das próprias feridas: buracos dela nele. Era assim. Ele não sabia [...]